PALAVRAS DA PRESIDENTE
Elisa M. Perina
Final de Ano! Tempo de reflexão e de balanço de nossas vidas, pessoal e profissional. Tempo em que se renovam às esperanças, os sonhos e criam-se novos projetos. Dentro dessa perspectiva parece ser o momento para fazermos um breve relato de nossos avanços e conquistas em 2006. Em consonância com nossos objetivos, trabalhamos no fortalecimento de nossa Sociedade junto a IPOS (International Psycho-oncology Society), Sociedades afins, Instituições e Universidades.
A aproximação com a Unicamp - Universidade de Campinas, deu-se através do Caism -Centro de atenção Integral à Saúde da Mulher, no apoio ao Seminário: Reflexões sobre a Vida e a Morte, organizado pela Prof. Dra.Vera Lúcia Rezende, coordenadora da Comissão de Saúde da Mulher da SBPO e do Serviço de Oncologia do HC-Unicamp.
Junto ao Setor de Onco-Hematologia Infantil do Departamento de Pediatria/FCM-Unicamp fizemos a proposta de criação do programa de aprimoramento em psico-oncologia e psico-oncologia pediátrica em conjunto com o Laboratório de Saúde Mental estruturado e aprovado pela Fundap (Fundo de apoio ao Desenvolvimento do Ensino e Pesquisa), devendo ter início em março de 2007 e serão realizados no Serviço de Oncologia do HC-Unicamp, coordenado pela Prof. Dra.Carmem Lima e no Serviço de Hemato/ Oncologia no Hospital Geral do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria. O programa foi Pediátrico do Departamento de Pediatria/FCM-Unicamp, que funciona no Centro Infantil Boldrini, coordenado pela Prof. Dra.Silvia Brandalise. Vale ressaltar o apoio e incentivo dado à viabilização do programa, por estas duas grandes oncologistas, que vêm na psico-oncologia uma possibilidade de transformação da realidade vivida pelos pacientes, familiares e equipe. A inclusão da Psico-oncologia como programa de aprimoramento cumpre com mais um de nossos objetivos, que é o de maior entrosamento, intercâmbio e propostas de trabalho conjunto com as Universidades Esperamos que este programa seja o primeiro e sirva de modelo para abertura e implantação de muitos outros dentro de nossas Universidades Estaduais e Federais. Temos certeza que o aprimoramento em psico-oncologia irá possibilitar, através do conhecimento teórico-prático das questões psicossociais que envolvem o adoecer de câncer, uma melhor formação dos profissionais para lidarem com a difícil realidade do paciente oncológico, permitindo maior abrangência de ações voltadas à assistência ensino e pesquisa.
Representamos a SBPO na reunião da IPOS com as Sociedades Nacionais, apresentando nossos trabalhos na área de psico-oncologia, por ocasião do 8th World Congress of Psycho Oncology.- Multidisciplinary Psychosocial Oncology: Dialogue and Interaction, em Veneza. Nesse Congresso o Brasil foi representado por 19 participantes com apresentação oral e posters, perfazendo um total de 39 trabalhos. Parabenizamos a todos que representaram, de maneira significativa, a psico-oncologia do nosso país.
Nessa oportunidade realizamos visitas e intercâmbios com o Serviço de Hematologia Pediátrica do Hospital São Gerardo, da Universidade de Milão, coordenado pelo Dr. Masera, em Monza; com o Instituto de Tumores de Milão e com o Serviço de Psico-oncologia pediátrica do Hospital Gregório Maranon, coordenado por Gabriela Medin e com o grupo de psico-oncologistas da Liga Nacional de Combate ao Câncer, em Madrid. Algumas propostas de trabalho foram delineadas nesses encontros.
Um terceiro marco significativo desta gestão foi à realização do Simpósio de Psico-oncologia, em conjunto com a SBC-Sociedade Brasileira de Cancerologia, durante o Congresso Brasileiro de Cancerologia em Belo Horizonte. Não poderia deixar de mencionar a importante contribuição do grupo mineiro de psico-oncologia, em especial Marilia Aguiar, representante da SBPO do Estado de Minas Gerais (Regional Sudeste), que abraçou a causa, constituiu um grupo de trabalho junto à comissão cientifica do Congresso, concretizando e viabilizando, num curto espaço de tempo, excelente programa, com temas relevantes que privilegiaram o olhar multiprofissional , refletindo o verdadeiro trabalho com pacientes oncológicos, familiares e equipe. Pode-se realizar profícua discussão acerca das ações integradas no atendimento às múltiplas necessidades do paciente oncológico. O estreitamento dos laços da SBPO com a SBC permitirá que novos projetos conjuntos sejam elaborados até 2009.
Ações conjuntas fortalecem e cumprem com nosso ideal de integralidade na assistência aos pacientes oncológicos. Dentro desta concepção, representando a SBPO, a vice presidente Márcia Stephan, tem participado das reuniões do Consinca-Conselho Consultivo do Inca criado,no Rio de Janeiro, em 1992 e que decide as políticas nacionais relativas ao Câncer. Desde 2003 a SBPO tem assento no Gat-CONSINCA , Grupo de Apoio Técnico ao Consinca formado por associações de classe, e formadores de opinião de relevância à matéria . A Presença da SBPO neste grupo notabiliza a importânca crescente que a Psico-Oncologia vem adquirindo no panorama dos cuidados relativos ao Câncer. Além de participar de discussões e promover contatos, a Vice-Presidência estabeleceu também interessante parceria com a Rede Câncer www.redecancer.org.br site recém inaugurado e que recomendamos a todos .Esperamos ampliar nossos laços de parceria em 2007 e contamos com cada um de vocês que fazem parte de nossa história.
Para finalizar, gostaria de enfatizar o desejo de uma gestão participativa. Esperamos sugestões, o envio de trabalhos para o boletim, novos associados, participação efetiva nos comitês e grupos de estudos cooperativos e multicêntricos. Tragam novas propostas de trabalho e contribuições para o fortalecimento de nossa Sociedade. Criem grupos ou núcleos de representação e de participação em estudos. Vamos favorecer encontros para discussões e busca de novas estratégias psicossociais para a promoção da saúde, prevenção, diagnóstico precoce, melhores chances de cura e qualidade de vida. Somente na união e participação ativa é possível crescer e complementar-se.
Contamos com vocês para que nosso ano de 2007 seja repleto de novas realizações que favoreçam cada vez mais a dignidade do viver.
Um feliz Natal e 2007 plenos de Amor e Saúde.
TEMPO DE RENASCIMENTO
Rita de Cássia Macieira
Tempo de primavera. Tempo de renascimento. A semente guardada tanto tempo no solo, brota. A borboleta, finalmente, sai de seu casulo. Coube a Elisabeth Kubler-Ross utilizar, amiúde, o ciclo de vida da borboleta como metáfora para a vida e a morte. O ciclo de renascimento.
E a cada renascimento um ser mais completo evoluído e mais sábio. Morremos para o útero materno, para nascermos criança. A morte da criança traz a explosão de energias e a criatividade da adolescência. E assim, sucessivamente, a vida vai ganhando cores, sabores, aromas e amores, através das mortes e renascimentos, incorporando a cada etapa, os conhecimentos anteriores.
Hoje o Boletim SBPO renasce, saindo do casulo gestacional desta nova etapa de vida, para ganhar mais espaço e evoluir conforme a lei da natureza. É o momento da diretoria SBPO 2002/2006 saudar e desejar longa vida, cheia de novos conhecimentos e sucessos. Como idealizadores do Boletim SBPO, confiamos nas mãos seguras que o estão conduzindo agora, nesta saudável troca de direção.
Durante nossa gestão, a comunicação com os sócios e com a comunidade, foi uma das prioridades. Buscamos utilizar os recursos da rede internacional de comunicação internet - para viabilizar e agilizar a transmissão de informação e de conhecimento, principalmente através de dois instrumentos: site e Boletim SBPO.
O site da SBPO, mantido sempre atualizado, competentemente, pela Dra. Maria Helena Pereira Franco, trouxe inúmeras seções envolvendo notícias da diretoria, da área da Psico-Oncologia, notícias sobre cursos e eventos, diretrizes para a associação à Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia e referências bibliográficas na área. O site é consultado, freqüentemente, pelos sócios e por profissionais e estudantes da área, assim como por pessoas interessadas em indicação de terapeutas para pacientes coma câncer e leigos em busca de informações gerais, que os auxiliem a conhecer mais sobre câncer, direitos do paciente, entre outros assuntos Até maio de 2006, foram computadas aproximadamente 100 mil consultas.
Ao ser criado em março de 2004, como mais um instrumento de comunicação, a missão do Boletim SBPO era ir de encontro aos profissionais e estudantes da área de saúde. Trouxe sempre artigos recentes de pesquisadores na área e abriu um novo canal para sócios da SBPO poderem divulgar os seus trabalhos e também, conhecer os trabalhos dos colegas. Pelas Palavras do Presidente, o Boletim SBPO funcionou como um veículo de divulgação das propostas, diretrizes e realizações da diretoria. Sua periodicidade inicialmente idealizada para ser mensal tornou bimensal. Durante todo este tempo, desde seu nascimento até agora, foram praticamente diários os pedidos de inclusão para recebê-lo eletronicamente. Hoje conta com mais de 2100 endereços eletrônicos cadastrados.
Tive o prazer de cuidar de sua primeira infância, até a edição Maio/Junho de 2006. Vi-o crescer e atingir a marca de mais 13.200 acessos até início de outubro de 2006. Pelo acompanhamento diário das estatísticas de acesso enviadas até o momento, para meu e-mail pessoal, percebo o interesse da comunidade em mantê-lo saudável e forte.
Hoje, a importância do Boletim SBPO, é indiscutível. Por este motivo, tenho certeza que será cuidado com carinho pela nova diretoria. Posso, então, me despedir de sua coordenação tranqüilamente.
Sinto que neste momento a SBPO deve um agradecimento à Virtuotech, que inicialmente idealizou, criou, aperfeiçoou, revisou e organizou cada número do Boletim, na forma e na ortografia, cuidou do envio e manutenção para que cada artigo pudesse ser acessado quando o leitor o desejasse. A Virtuotech ofereceu tudo isto graciosamente como uma contribuição à SBPO, além de disponibilizar a hospedagem do Boletim em seu site.
Para coordenar e orientar seus passos futuros foi designada a Dra. Luciana Pagano Castilho. Como membro desta atual diretoria tão empenhada com a psico-oncologia em geral, e com a SBPO e seus sócios, em particular, tenho certeza que a Dra. Luciana cuidará com carinho e competência deste instrumento de comunicação. Creio que ela sabe que contará sempre, com toda a ajuda que eu puder lhe oferecer.
Sou grata à diretoria SBPO, gestão 2002/2006, a qual tive o privilégio de pertencer, pelo apoio e carinho com esta iniciativa, que foi o lançamento do Boletim SBPO. A cada uma das pessoas que colaboraram enviando seus artigos e sugestões, muito obrigada.
Agradeço à nova diretoria, que na pessoa da Dra. Luciana, ofereceu-me a oportunidade de colaborar neste renascimento.
Se me for permitido pedir algo neste momento, solicito a todos que nos apoiaram tão carinhosamente, que continuem a colaborar com o Boletim SBPO, enviando artigos, sugestões e críticas para seus novos responsáveis. Tenho certeza que as críticas serão poucas e os elogios muitos, dada a competência e o comprometimento desta nova gestão.
Ao novo Boletim SBPO, meus votos de vida longa e frutífera.
PSICONCOLOGIA HOJE
Elizabeth Ranier Martins do Valle
Introdução
O câncer, por ser uma doença grave, que necessita de várias modalidades de tratamentos de alta complexidade, por longos períodos, envolvendo freqüentes hospitalizações e que, apesar dos grandes avanços científicos ainda pode matar, foi mostrando, no cotidiano dos hospitais, que o modelo biomédico para sua assistência se revelava insustentável para abranger o universo dos pacientes e familiares. Assim, novos paradigmas começaram a ser buscados pelas equipes de saúde com a proposta de prestar, a essas pessoas, um cuidado integral, incorporando os aspectos psicossociais , de modo a facilitar a adesão e participação do tratamento por todos os envolvidos. Assim, o suporte psicossocial começou a ser incluído nos ambulatórios, unidades de internação e nas casas de apoio a pacientes com câncer, através da constituição de equipes multi e interdisciplinares, tornando-se de extrema importância no processo de tratamento e recuperação (Perina, 2005).
No Brasil, as intervenções em psiconcologia e o delineamento dos campos de estudo começaram a ser sistematizados a partir do I Encontro Brasileiro de Psiconcologia, sob a presidência do Dr. Luiz Pedro Pizzato, em 1989 em Curitiba, e do II Encontro Brasileiro de Psiconcologia realizado em Brasília, em 1992 (Gimenes, 1994). Nesse encontro eu e Elisa Maria Perina fomos convidadas a organizar e a ministrar o I Curso de Psiconcologia Pediátrica. Nesses encontros, através das trocas de informações, de experiências práticas foram surgindo as bases do que viria a ser a Sociedade Brasileira de Psiconcologia.
Nos congressos subseqüentes em Salvador (1996), em Goiânia (1998), em Gramado (2000), em Recife (2002), em São Paulo(2003 e 2006), os princípios filosóficos da Psiconcologia no Brasil, tanto na assistência aos pacientes e seus familiares, como no ensino em vários níveis, principalmente nas universidades formadoras de profissionais da Saúde e na pesquisa foram se consolidando e se difundindo por todas as regiões do país. Nesses congressos temos tido a oportunidade de observar a ampliação do campo de trabalho das equipes multidisciplinares, com ênfase aos programas preventivos e às intervenções nos vários níveis de tratamento ( primário, secundário e terciário), assim como nas situações de cura e de morte (Perina, 2005).
A Psiconcologia
Há várias definições para o que vem a ser Psiconcologia, como bem pontuou Maria Margarida M.J. de Carvalho - a Magui - no livro que organizou sobre esse tema em 1994 Introdução à Psiconcologia . Vou apresentar a definição que ela mesma propõe nesse livro:
A Psiconcologia representa a área de interface entre a Psicologia e a Oncologia e utiliza conhecimento educacional, profissional e metodológico proveniente da Psicologia da Saúde para aplicá-lo:
- na assistência ao paciente oncológico, à sua família e aos profissionais de saúde envolvidos com a prevenção, o tratamento, a reabilitação e a fase terminal da doença;
- na pesquisa e no estudo de varáveis psicológicas e sociais relevantes para a compreensão da incidência, da recuperação e do tempo de sobrevida após o diagnóstico do câncer;
- na organização de serviços oncológicos que visem ao atendimento integral do paciente (físico e psicológico), enfatizando de modo especial a formação e o aprimoramento dos profissionais de Saúde envolvidos nas diferentes etapasdo tratamento (Carvalho, 1994).
Hoje existe uma sociedade instituída A Sociedade Brasileira de Psiconcologia a SBPO, que foi se organizando a partir de interesses e objetivos comuns de vários profissionais da saúde e educação, que trabalhavam na assistência a portadores de neoplasias, voluntários e acadêmicos-pesquisadores e que começaram a se reunir nos primeiros congressos organizados para a troca de experiências na área. A programação técnico-científica era constituída por relatos de experiências em hospitais, da prática em consultórios e de pesquisas, estas nem sempre instruídas por um protocolo de investigação.
Nessa época, início dos anos 90, eram realizadas apresentações de módulos de psiconcologia (teoria, intervenção e pesquisa) em cursos de psicologia hospitalar e da saúde, em diversas partes do Brasil.
Com o aumento constante da produção científica artigos, dissertações e teses, dentro da área - a psico-oncologia foi ganhando status, consolidado pelos programas de pós-graduação stricto sensu, com envolvimento de membros da SBPO.
É importante salientar que a pesquisa na área oncológica, muitas vezes, aparece engajada a uma prática, o que foi colaborando para a consolidação dessa prática e de novos saberes que puderam ser vislumbrados por outros profissionais e por outros serviços.
Com a regularidade de ocorrências dos congressos e demais reuniões científicas, no Brasil e no exterior, espaços foram abertos para o debate de diversos temas na área e muitas trocas puderam ser realizadas entre os profissionais. Além disso, estes foram se agrupando, instituindo linhas de pesquisa que alimentaram novas publicações e assim o conhecimento foi se expandindo e aprofundando, sendo absorvido por novos profissionais nas suas práticas e pesquisas que foram adquirindo um padrão de excelência, equivalente ao de países de primeiro mundo em grande parte do país.
Vale ressaltar a participação do voluntariado - pessoas e entidades que se organizaram e passaram a auxiliar os centros de tratamento oncológico, quer prestando diretamente seus serviços para angariar fundos para compra de determinadas medicações e alimentos para complementar o tratamento, quer para dar uma condição melhor de vida aos pacientes e a seus familiares providenciando transporte quando necessário para levá-los à rodoviária, à Casa de Apoio, ao hospital... quer realizando melhorias nas dependências físicas dos hospitais e das Casas de Apoio, quer na compra/doação de aparelhos/equipamentos sofisticados para o tratamento, dentre outros... quer providenciando passagens aéreas quando se faz necessário...
O que podemos falar da Psico-Oncologia hoje?
- Podemos falar do atendimento/da assistência multi e interprofissional:
A importância das equipes multi e interprofissionais: É fundamental uma equipe com competência técnica para lidar com as várias situações que a doença engendra. Uma equipe que não seja apenas a soma dos vários saberes, mas que também envolva uma complementaridade de conhecimentos, recursos e técnicas multidisciplinares. É fundamental uma equipe competente para lidar com as diversas etapas da doença, com os vários e intensos momentos que família e paciente vivem. Essa equipe necessita de um espaço para realizar suas trocasprofissionais para chegar a um denominador comum no que tange ao cuidar de seu paciente e de seus familiares: o que deve ser dito, como deve ser dito. Qualquer que seja a situação, os profissionais devem ter muito claro que sua presença e o contato com aqueles que estão passando por um momento doloroso, muitas vezes funcionam como apoio e atenção.
- Podemos falar da formação profissional na área/ no Ensino:
. Disciplinas incluídas em cursos universitários como autônomas ou fazendo parte de uma outra disciplina, por exemplo: Psicologia da Saúde; Psicologia Hospitalar;
. Muitos já são os cursos de Especialização na área / Cursos de extensão, de aprimoramento,
. Estágios de profissionais na área, no Brasil e no Exterior (buscando novos saberes/novas práticas).
. Estágios profissionalizantes/ estágios curriculares regulares para alunos de graduação(em Enfermagem, em Psicologia, em Serviço Social e outros.
. Formação acadêmica: cursos de pós-graduação: Mestrado e Doutorado com linhas de pesquisa na área da Psiconcologia.
- Podemos falar da mobilização de pessoas nos Grupos de Voluntários e nas Equipes de Saúde : (cabe observar que os grupos de voluntários se constituem em verdadeiras indústrias que movem montanhas para complementar uma assistência digna ao paciente com câncer e à sua família):
- construção/organização e gerenciamento das Casas de Apoio;
- campanhas com a finalidade de arrecadar recursos para complementar o tratamento/ proporcionar conforto/ implementar uma brinquedoteca/ colaborar com as famílias em diferentes situações ( até na hora da morte, quando essa acontece) como, por exemplo, a campanha nacional do McDia Feliz;
- participação de programas de reinserção escolar, de modo a garantir a continuidade escolar da criança doente;
- participação de campanhas para a prevenção do câncer;
- organização de projetos para aliviar/amenizar as agruras do tratamento, como por exemplo: Projeto Felicidade; McDia Feliz,
- administração financeira e gerenciamento dos recursos do grupo; dentre outros.
- Podemos falar de enriquecimento da vida dos pacientes e de seus familiares (que, malgrado a doença, usufruem dos recursos que o hospital e a comunidade dispõem aos envolvidos durante o tratamento) :
- palestras à família (sobre outros aspectos, além do tratamento: higiene/ alimentação/ relações humanas; etc.
- a escola no hospital / acompanhamento pedagógico na Casa de Apoio/ a brinquedoteca no hospital
- cursos de arte para as crianças e suas mães (ou acompanhantes)
- passeios e festas programados (camping, parques, Projeto Felicidade, teatro/ comemorações em datas especiais (Natal, Dia da Criança, dentre outras...)
- Podemos falar em amenizar as dores físicas, psicológicas, morais e sociais diminuir o que se conceitua como DOR TOTAL tanto pelos avanços médicos/ científicos e medicamentosos ( que muitas vezes podem evitar um tratamento drástico, como uma amputação, evitar internações muito longas....) como pela conjunção dos vários fatores e condições expostos anteriomente, que envolvem a participação de vários profissionais e voluntários (como, por exemplo: Os Doutores da Alegria / a Cia. do Riso para aliviar a hospitalização e suas consequências; ou então a criação de programas voltados para a reabilitação : tanto física, como, por exemplo, a doação das próteses (de membros/ de olhos); como emocional: os programas de reabilitação de mulheres mastectomizadas (Ex. REMA), onde há um grupo multiprofissional que promove reuniões semanais e todo um arsenal de aparelhos/técnica/exercícios para minimizar o impacto da cirurgia mutiladora, recuperar funções, ajudar na recuperação da auto imagem...; o grupo de Laringectomizados que ajuda na recuperação da auto imagem e da comunicação, agora que a voz ficou comprometida ou se perdeu; o grupo de tumor de cabeça e pescoço..., o GACC- Grupo de Apoio à Criança com Câncer e tantos outros que somam esforços para aliviar os sofrimentos e favorecer uma melhor qualidade de vida; o Programa de Reinserção Escolar de Crianças com Câncer ( ficar fora da escola é vivido pelas crianças como fracasso/atraso de vida/ ficar pra trás) e tantos outros...
- Podemos falar em cuidados paliativos
- Podemos falar em assistência ao luto quando a morte ocorre as relações dos profissionais de saúde com a família costumam ser cortadas quando o paciente vem a óbito... Pesquisas mostram que quando há possibilidade de acolhimento a essa família, muitas delas retornam algumas vezes ao hospital e podem ter um espaço para elaborar seu luto, sentir-se mais aliviada pela perda e apoiadas por uma equipe que intenciona ajudar. Desse modo, muitos serviços já se organizam para estender seus cuidados aos parentes de um paciente que faleceu de câncer, seja ele adulto ou criança.
- Podemos falar da produção científica : pesquisas realizadas em várias áreas (médica-medicamentosa/ biológica/ psicológica e social), nas universidades( nos cursos de Graduação e Pós-graduação) e nos grupos de estudos multicêntricos ( envolvendo vários profissionais em vários centros de pesquisas/ realização de pesquisas compartilhadas em várias cidades, em nível nacional e internacional) vêm sedimentando os conhecimentos nas áreas de interface da Psico-oncologia.
Nesse sentido é importante legitimar as modalidades de investigação:
Reunir pessoas com prestígio e reconhecimento em pesquisa
Trazer à luz novos pesquisadores
Publicar os achados científicos e compreensivos para que outras comunidades/centros de tratamento possam usufruir dos conhecimentos advindos das pesquisas
Perspectivas da Psiconcologia:
A afirmação/ manutenção de sociedades, como a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia que representem os profissionais da área e legitimem suas ações .
- 1ª. Certificação de Psiconcologista- Nesse ano de 2006/ primeiro semestre, em São Paulo, no Congresso da SBPO, ocorreram as primeiras provas e avaliações diretas para psicólogos que já vinham trabalhando na área e, aos aprovados foram conferidos certificados de psiconcologistas (mais de cem receberam sua certificação de psiconcologista).
- Eventos científicos/ congressos de Psiconcologia: em nível local/ nacional e internacional - a possibilidade de participação de profissionais da área (médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, dentre outros) para troca de experiências e investigações ( o que já vem sendo realizado ). Muitas vezes, desses eventos saem protocolos de cuidados aos pacientes e seus familiares. Por exemplo , as Guidelines da SIOP: como Orientações sobre escola/ educação; Orientações sobre assistência a crianças curadas de câncer; Orientações sobre a comunicação do diagnóstico; orientações para a assistência a crianças com câncer em estado terminal, dentre outros.
- Pesquisas multiprofissionais e multicêntricas:
-VANTAGENS (OU IMPLICAÇÕES) DO ESTUDO MULTICÊNTRICO
- Criar modelo para outros estudos conduzidos por membros da SBPO
- Aumentar o intercâmbio pré, trans e pós Congressos da SBPO
- Aproximar as naturezas Pesquisa e Intervenção
- Criar um perfil epidemiológico comportamental em psico-oncologia
- Buscar uma leitura interpretativa interdisciplinar de questões afins à psico-oncologia
- Proporcionar maior aproximação de psico-oncologistas nacionais/latino-americanos/internacionais
- Obter maior fluidez na interlocução científica
- Aumentar o número de publicações de produtos produzidos coletivamente
- Juntar recursos de infra e supra-estrutura científicas
- Criar espaço para a proposição de novas colaborações e novas idéias
Pretendi, nesse breve espaço, delinear alguns aspectos que julgo muito importantes que contribuíram e contribuem para a consolidação de uma assistência integral ao paciente com câncer e aos seus familiares. Muita coisa já se fez, muita coisa está sendo feita e, com certeza, outras tantas se farão nesse sentido. O importante é aliar, ao conhecimento que advém de inúmeras experiências e pesquisas, o olhar com os tantos afetos que o profissional, como ser humano que também é, for capaz.
Referências Bibliográficas:
- Carvalho, MMMJ. Introdução à Psiconcologia. Campinas, Editorial Psy, 1994
- Perina, E.M. Breve histórico da Psiconcologia Pediátrica no Brasil. In: Perina, E.M.; Nucci, N.A.G.(orgs). As dimensões do cuidar em Psiconcologia Pediátrica (1). Campinas, Ed. Psy, 2005 .
- SIOP/Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica.(Trad. Françoso, LPC; Valle, ERM). Orientações sobre aspectos psicossociais em oncologia pediátrica. Brasil, 2004
- Valle, ERM. Câncer Infantil: compreender e agir. Campinas, Ed. Psy/Livro Pleno, 1997.
Manejo do Luto do Profissional de Saúde diante da morte de um membro da equipe
À D. Nelma, In Memoriam
Autores: Frida Abezgauz Rumen, Analucia Cossich Coelho, Juliana Wallig,Sheila de Paula,Soraya Santana, Márcia de Carvalho Stephan.
Instituição: Serviço de Hematologia e Oncologia Clínica do Hospital Cardoso Fontes, Rio de Janeiro/RJ
RESUMO: O diagnóstico de um câncer avançado com prognóstico sombrio, numa secretária, de um Serviço de Oncologia, no Rio de Janeiro, levantou várias questões aos membros da equipe de saúde: decidir sobre aceitar, ou não, tratar a colega no próprio serviço; como fazê-lo; como lidar com a família; como permear a conduta profissional com o envolvimento afetivo da forma mais adequada possível; como lidar com a terminalidade e a morte da colega. A elaboração do luto da equipe deu-se de forma não complicada, como resultante deste processo.
Introdução: O diagnóstico de câncer de ovário metastático avançado, sem possibilidade de tratamento com intenção curativa, em uma secretária do Serviço de Hematologia e Oncologia Clínica, do Hospital Cardoso Fontes, há mais de 15 anos no Serviço, causou grande impacto emocional em todos os seus componentes, e exigiu intervenção da Equipe de Psico-oncologia, desde a notícia deste diagnóstico até o óbito. Os cuidados paliativos, indicados para o caso, após a realização de histerectomia, incluiram dois ciclos de quimioterapia e foram efetuados no próprio serviço, A princípio, a equipe médica ofereceu alternativas de indicação para acompanhamento particular, em outros hospitais,o que resguardaria a intimidade e a privacidade da colega, ao mesmo tempo que preveniria possível burn-out da equipe. Esta proposta não foi acatada, e a paciente insistiu para ser tratada em casa, por seus doutores.
POPULAÇÃO-ALVO: A paciente, a família (marido e filho), a equipe de saúde ( oncologistas, médica especialista em cuidados paliativos, enfermeiras e psicólogas), o grupo de auxiliares de enfermagem, os funcionários da Secretaria e a auxiliar de serviços gerais.
MÉTODO: Durante os quatro meses de sobrevida, algumas estratégias foram utilizadas pela equipe médica para lidar com o prognóstico da terminalidade e garantir que o melhor possível estaria sendo feito, tanto para a paciente como para a própria equipe:
- marcação de consultas e de quimioterapia em horários especiais, de menor circulação de outros pacientes
- proibição de vistas de colegas de outros setores do hospital, que interferissem e tumultuassem a rotina do Serviço
- revezamento das visitas dos médicos do Serviço, durante internações na enfermaria e no CTI.
Sentimentos de impotência e de fracasso, vivenciados pela equipe com muita intensidade durante o impacto causado pela confirmação do diagnóstico sombrio , podem ser ilustrados pelas falas :
Eu fui o ground zerodo tratamento.Ela vinha com vários exames e opiniões e eu tomei a mim o tratamento e segui até o final. O diagnóstico já selara o prognóstico.
- Que droga, existe para a gente também!
- Concretização da proximidade do câncer. É muito desconfortável, doloroso.
- Foi uma coisa tão rápida que não deu pra pensar! Chocou pela velocidade e por não podermos fazer nada, ela estando aqui dentro
- Estou anestesiada até hoje. Diiculdade de acreditar. Sentimento de impotência.
As auxiliares de enfermagem e os funcionários da Secretaria e de serviços gerais lamentaram:
- Eu perdi uma irmã. Ela ainda tinha muito o que viver. Ela passava coisas difíceis e parecia que tirava de letra. Foi muito chocante. Eu procuro e não encontro uma explicação.
- Para mim (a morte) foi um alívio, pois acho que ela se livrou de um fardo. Na verdade ela morreu no momento do diagnóstico. Ela parecia um fantasma durante o tratamento.
- Às vezes, a gente acha que porque está lidando com a coisa está imune. Mas somos surpreendidos.
- Foi assustador, tão imprevisível, uma mulher tão alegre, cheia de planos, oi deprimente. Não esperávamos que ela não melhorasse e fosse tão rápido.
A paciente questionava e ao mesmo tempo tentava negar a gravidade da doença, e ressaltava a preocupação com a família, de quem era o arrimo financeiro:
- Por que fui ter justamente a doença de onde eu trabalho?
- Não há de ser nada, bola pra frente
- Minha família está tão preocupada... Você pode conversar com eles( dirigindo-se para a psicóloga do Serviço que a acompanhou e à família)
A equipe de Psico-oncologia acompanhou dia a dia a evolução do trabalho da equipe, em cada etapa do tratamento. Desenvolveu, simultaneamente, um plano específico de atendimento, visando dar suporte à paciente, fortalecer a rede de apoio familiar e promover espaço para reflexão e acolhimento das colegas mais próximas, através de:
- Três entrevistas com a paciente, sendo um deles no CTI
- Duas entrevistas com a família (marido e filho)
- Dois encontros com o grupo de auxiliares de enfermagem e funcionários da secretaria e de serviços gerais.
Resultados alcançados: Houve integração do trato profissional com o trato pessoal, na medida em que médicos, enfermeiras, psicólogas, auxiliares de enfermagem e funcionários puderam cuidar e ser cuidados ao longo de todo o processo. O envolvimento afetivo com a colega se deu de forma crítica e foi a base para a tomada de decisões práticas, convenientes tanto para o bem-estar da paciente como para a equipe. A paciente, a família e a própria equipe beneficiaram-se, neste contexto. O acolhimento oferecido à família, por outro lado, abriu espaço para o esclarecimento de dúvidas quanto ao tratamento médico, verificando-se o nível de entendimento cognitivo e emocional da situação, ao mesmo tempo em que apontou a urgência na tomada de providências, no âmbito financeiro e dos benefícios sociais.
OUTRAS CONSIDERAÇÕES: Dentro deste contexto de múltiplas intervenções, o nível de estresse da equipe manteve-se sob controle, sem evoluir para o burn-out, o que favoreceu a elaboração do luto antecipatório. Algumas semanas após o óbito, foi inaugurada uma placa, nomeando a Sala da Secretaria, em homenagem à colega, evidenciando, assim, o entrelaçamento da afetividade e da emoção, com o sentido profissional, de forma plena e humana.
Rio de Janeiro, Abril/2005
Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica
Orientações Psicossociais
TERAPIAS NÃO CONVENCIONAIS E CÂNCER INFANTIL: ORIENTAÇÕES PARA A DISTINÇÃO ENTRE TERAPIAS PREJUDICIAIS E NÃO PREJUDICIAIS
Momcilo Jankovic, MD, John Spinetta,PhD, Antonio Gentil Martins,MD, Andrea Pession, MD, Michael Sullivan, MD, Giulio J D Angio,MD, Tim Eden,MD, Myriam Weyl Bem Arush,MD, Sutaryo X,MD, Leena-Riitta Punkko,MD,PhD, Claudia Epelman,PhD, Giuseppe Masera,MD.
Este é o 11º. Documento oficial do comitê de trabalho sobre aspectos psicossociais em Oncologia Pediátrica da SIOP,constituido em 1991. Há uma tendência entre alguns médicos de afirmar-se absolutamente contra o uso de terapias não convencionais, não comprovadas, mesmo quando não são prejudiciais. Há uma tendência oposta por parte dos pais de fazer o que podem por seu filho, o que inclui o uso de qualquer terapia não convencional que eles sentemque pode trazer algo de positivo. A equipe de saúde deve abrir um diálogo saudável com os pais, que levará a uma distinção clara entre estas terapias complementares que são prejudiciais e as que não o são, podendo estas serem uteis do ponto de vista psicológico.
Palavras-chave: câncer infantil, terapias prejudiciais e não prejudiciais, terapias não convencionais, questões psicossociais.
Publicado em Pediatric Blood Cancer,42:106-8 (2004).
INTRODUÇÃO
Estas orientações delineiam questões chave para a distinção entre terapias prejudiciais e terapias parcial e/ou definitivamente prejudiciais no tratamento do câncer infantil. Inerente a esta discussão é a presuposição de que os pais - e a criançaou o adolescente conforme seu nível de desenvolvimento permitir- participam aticvamente do processo de tomada de decisão a respeito do tratamento médico convencional. Inerente da mesma forma é que os médicos e os outros membros da equipe de saúde incentivam o diálogo, oferecem conselhos e ouvem as preocupações dos pacientes e seus pais a respeito de terapias não convencionais.
O tratamento convencional em câncer infantil inclui terapias comprovadas(testadas, baseadas em experimentos e comprovadas como eficazes)e terapias experimentais(que estão sendo estudadas em investigações clínicas) . Terapias convencionais, assim, referem-se a formas de tratamento médico (a) que são amplamente usadas e aceitas por médicos como as mais eficazes (b) cuja eficácia é uma evidência científica e (c) cujas referências e conclusões estão publicados em revistas de reputação científica.(1). Ressaltamos o fato de que terapias convencionais são baseadas em pesquisas clínicas.
Tratamento médico não convencional em câncer infantil envolve duas concepções que diferenciam-se tanto no significado como na prática clínica: terapias complementares (aquelas que são usadas juntamente com a Medicina convencional) e alternativas ( aquelas que são usadas no lugar da Medicina convencional) (1-4). O que se segue é uma elaboração sobre a distinção do termo terapia não convencional entre terapias usadas no lugar Medicina convencional (terapias alternativas) e terapias usadas juntamente com a Medicina convencional( terapias complementares). Embora estas orientações sejam escritas para a Oncologia Pediátrica, muito do trabalho neste campo tem sido feito na Medicina para adultos(5-10), sendo aplicável em crianças.
Terapias alternativas
Terapias alternativas são tratamentos não comprovados que substituem ou são usados no lugar da Medicina convencional (1). Levam à descontinuidade da terapia comprovadamente efetiva. O tratamento recomendado por médicos especialistas em Oncologia Pediátrica para a crianç ou o adolescente em particular é substituido por um tratamento médico ou não médico, não convencional, cuja eficácia não é comprovada. Tal substituição pode levar à perda do direito do paciente ao melhor tratamento e à perda de uma melhor expectativa de sobrevivência da criança ou do adolescente. Este uso da Medicina alternativa deve ser desencorajado firmemente através de explicações completas e adequadas ao paciente e seus pais, para que possam entender as razões desta orientação.
Terapias complementares
Terapias complementares são aquelas que são usadas juntamente com a Medicina convencional, para ajudar no alívio dos sintomas, diminuir efeitos colaterais ou propiciar benefícios psicológicos(1). Tem hqavido um crescente uso destes tratamentos complementares- cerca de metade dos pacientes adultos usam de alguma forma teapia complementar- e um crescente número de pais de crianças com câncer apoiando este uso (2). Terapias não prejudiciais incluem intervenções como biofeedback, relaxamento e meditação, hipnose, imagens, massagens, aromaterapia, uma variedade de práticas espirituais curativas próprias de cada cultura, crenças e práticas religiosas. Tais terapias complementares: a) geralmente fazem com que a criança ou o adolescente e seus pais se sintam melhor b) dá a eles a sensa~ao de controle em relação aos processos de tomada de decisões c) pode ajudar a reduzir a dor física e psíquica d) pode melhorar a qualidade de vida e) pode oferecer alívio dos efeitos colaterais do tratamento convencional f) pode auxiliar o sistema imunológico. Dados da clínica em Oncologia Pediátrica confirmam o valor, a utilidade e a ampla participação das famílias nestas terapias complementares(2). Aquelas que não são prejudiciais e propiciam apoio psicológico não devem ser desencorajadas pela equipe profissional.
Em resumo, os médicos e os outros membros da equipe de saúde devem desencorajar a interrupção do tratamento convencional e sua substituição por terapias alternativas não comprovadas. Ao mesmo tempo, não devem desencorajar a discussão com os pais e o uso controlado de terapias complementares não prejudiciais, com as seguintes restrições:
Terapias prejudiciais versus terapias complementares não prejudiciais
O problema sério das terapias complementares é que quando usadas em excesso, algumas destas terapias podem causar complicações, efeitos colaterais graves, sendo fisicamente nocivas à criança, podendo até mesmo levar à morte. A toxidade das ervas é o principal exemplo de terapia supostamente não prejudicial que torna-se bastante nociva. Ervas, vitaminas e minerais se enquadram nesta categoria. Uma mistura de ervas chamada Aristolochia Fangchi pode causar insuficiência renal progressiva e consequentemente câncer de bexiga. Borrago officinalis pode levar à doença veno-oclusiva. Tussilago farfara pode levar à necrose do fígado. Eucalptus globulus à ataxia. Camphora à convulsões. Gingsen à hipertensão, e altas doses de vitamina A à insuficiência hepática. Outras terapias complementares podem ser muito nocivas também- por exemplo: uso excessivo de enemas, aplicações de campos magnéticos e/ou energia elétrica e o uso de agentes farmacológicos derivados de caroço de pessego., e cartilagem de tubarão. Eyre e seus colaboradores dão uma excelente e detalhada visão sobre este assunto (1).
Não é objetivo destas orientações listar todas terapias não convencionais prejudiciais. Mas o é estimular os pais a discutirem com os médicos e os outros membros da equipe de saúde como uma proposta alternativa em particular pode prejudicar seu filho. Os pais devem tomar muito cuidado em usar uma terapia não convencional quando : a9 a terapia é um segredo que apenas algumas pessoas específicas podem providenciar b) a terapia promete a cura de todos os tipos de câncer ou condições médicas c0 os responsáveis reclamam serem perseguidos pela comunidade médica, ou especialmente e) os responsáveis exigem dinheiro antecipado.
O prejuizo pode ser tanto psicológico como físico. Mesmo quando não há um prejuizo físico real, dar falsas esperanças aos pais pode causar um quadro psicológico grave quando a terapia complementar provar sua ineficácia.
Quando usada durante a fase paliativa do tratamento, pode desviar os pais da sua real e dolorosa tarefa emocional de ajudar-se mutuamente, ao paciente e seus irmãos a prepararem-se para os últimos dias de vida da criança.
Orientações para o uso da terapia não convencional
1- A equipe de saúde deve aceitar que a criança/o adolescente e seus pais sempre usam os recursos de apoio que tem à sua disposição, incluindo terapias complementares não prejudiciais, mesmo quando sua utilidade é apenas psicológica. Especificamente, a equipe de saúde não deve automaticamente desencorajar o uso destas terapias.
2- A equipe de saúde deve estar atenta às terapias complementares não convencionais que podem ser prejudiciais física e/ou psicologicamente às crianças/adolescentes e seus pais.
Todos os membros da família devem ser encorajados a conversar abertamente sobre tais tratamentos complementares nocivos com pessoas conhecedoras e especializadas. Através de um diálogo aberto, a criança/o adolescente, de acordo com seu nível de desenvolvimento, e sus pais podem alcançar uma compreensão clara sobre a recomendação contrária do uso do tratamento, conhecendo seus efeitos tóxicos e adversos e as interações.
CONCLUSÕES
Há uma tendência em alguns médicos de posicionar-se contrário ao uso de terapias não convencionais, não comprovadas, mesmo quando tais terapias não são prejudiciais. Há uma tendência oposta por parte dos pais de fazer o que podem por seu filho, o que inclui o uso de qualquer terapia não convencional que eles sentem que pode trazer algo de positivo.
A equipe de saúde deve abrir um diálogo saudável que levará a uma distinção clara entre as terapias complementares prejudiciais e as potencialmente úteis. O fracasso em abrir este diálogo impedirá a criança/o adolescente e sus pais de conversar sobre o interesse na terapia complementar e pode eventualmente levá-los a abandonar o tratamento tradicional totalmente. Tal diálogo não só protege e promove os melhores interesses na saúde da criança, mas também pode promover indagações acerca a terapia não convencional em questão, até mesmo impulsionando pesquisas neste campo.
Agradecimentos:
Os autores agradecem M. Samardakiewicz (Poland), H.V. Kosmidis (Greece), M. Chesler (USA), C. Wandzura (Canada), E.M. Perina (Brazil), E. Krivoy (Israel), D. Mornar (Canada), G. Claldas (Portugal), M.C. Naafs-Wilstra (The Netherlands), A. Blian (Israel), A. Levinzon (Israel), C. Greenberg (Canada), M. Greenberg (Canada), A. Magen (Israel), K. Pekkanen (Sweden), K. Sirkia (Finland), J.R. Kowalczyk (Poland), K. Goddard (USA) por suas participações durante a discussão do documento e C. Manganini (Monza) por seu apoio na secretaria.
Referências Bibliográficas
1. Eyre HJ, Lange DP, Morris LB. Complementary and alternative therapies. In: Eyre HJ, Lange DP, Morris LB, editors. Informed decisions: The complete book of cancer diagnosis, treatment, and recovery. 2nd edition. Atlanta: American Cancer Society; 2002.
2. National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) Clearinghouse. National Institutes of Health. Silver Spring, MD; 2002.
3. Ditchek SH, Greenfield RH. Healthy child, whole child: Integrating the best of conventional and alternative medicine to keep your kids healthy. New York: Harper Collins (Harper Resource); 2002.
4. Kemper KJ. The holistic pediatrician. 2nd edition. New York: Harper Collins (Quill); 2002.
5. Monkman D. Educating health professionals about how to use the web and how to find complementary and alternative (CAM) information. Complement Ther Med 2001;9:258.
6. Cohen MH, Eisenberg DM. Potential physician malpractice liability associated with complementary and integrative medical therapies. Ann Int Med 2002;136:596603.
7. Ugoalah PC. The use of unconventional therapies among cancer patents: Implications for nursing practice. Can Oncol Nurs J 2002; 12:118124.
8. Jazieh AR, Khalil M. Hematologic complications of alternative remedies. Int J Hematol 2001;74:405408.
9. Tasaki K, Maskarinec G, Shumay DM, et al. Communication between physicians and cancer patients about complementary and alternative medicine: Exploring patients perspectives. Psyc-Oncol 2002;11:212220.
10. Kaler MM, Ravella PC. Staying on the ethical high ground with complementary and alternative medicine. Nurs Pract 2002;27: 3842.
FORMAS MARIAS DE SER:
UMA DISCUSSÃO ACERCA DA IDENTIDADE FEMININA
Na Casa Ronald Mc Donald pessoas chegam e outras se vão... Muitos encontros e despedidas permeiam o crescimento desse espaço que tem na Mulher-Mãe que acompanha seu filho doente uma figura fundamental para o bem estar da criança.
São mulheres que trabalham, conversam, cuidam, buscam a cura, reúnem, expulsam, excluem, acolhem, relaxam, cantam, criam, brigam, julgam, protegem, gritam, silenciam, calam, fogem, abraçam, rezam, amam, odeiam, choram, riem, cozinham, comem e dão de comer, amamentam ou amamentaram um dia, nutrem, geram, concebem, parem, adotam, oferecem, doam, perdoam, abdicam. São muitos os verbos que se conjugam as múltiplas relações que se estabelecem neste universo feminino.
O presente projeto nasceu da convivência e da observação das relações que essas mulheres estabelecem entre si, com seus filhos, consigo mesma. Mais especificamente, da necessidade de reunir informações, trocar experiências e intervir sobre este universo de forma a facilitar a convivência numa Casa de Apoio a Crianças e Adolescentes com Câncer.
Tem como proposta contribuir para o resgate e o cultivo da essência feminina dessas mulheres-mães, visando a valorização do ser - normalmente fragilizado e acuado em função da possibilidade da perda de seu filho, do afastamento de sua família, do seu meio sócio-cultural e, muitas vezes, profissional. Sua finalidade primeira é a reflexão acerca da expressão do feminino nas suas diferentes maneiras de manifestação e expressão; e, num segundo tempo, visa a comercialização de produtos criados por estas mulheres para arrecadação de renda no período em que estão afastadas de seus lares e empregos.
Para tanto, buscamos uma forma lúdica e uma linguagem comum que abarca o nosso universo cultural de Norte a Sul do país e o transcende. Como sinônimo de ser mulher, ser Maria, fala de modelos de comportamento e das diferentes facetas nas quais o Feminino pode se manifestar, facilitando a projeção de conteúdos e idéias. Estes ao serem expressos simbolicamente no estudo dos diferentes estilos Maria de ser e ao serem concretizados na confecção de bonecas, podem ser mais bem elaborados e integrados.
O projeto é desenvolvido através de dinâmicas de oficinas arteterapêuticas, tendo como base a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a Análise Psico-Orgânica de Paul Boyesen.
Resultados Obtidos:
* Observação da multiplicidade de divisões que ocorrem entre as mães e acompanhantes na Casa de Apoio:
- Religiosidade
- Poder Aquisitivo
- Manutenção ou não da própria identidade frente à doença do filho
* Posicionamento radical de algumas mães em relação à sua própria religiosidade impedindo um olhar mais amplo sobre a doença do filho;
* Grande relaxamento do qual as participantes usufruem quando iniciam o trabalho artesanal, falando espontaneamente de si: seus desejos, sonhos, medos e esperanças;
* Construção de um espaço de confiança entre terapeutas e participantes, favorecendo o compartilhar de situações e emoções;
* Percepção dos limites e possibilidades da convivência grupal, que podem ser expressas e acolhidas no grupo;
* Maior compreensão dos trabalhos terapêuticos e assistenciais oferecidos pela Casa;
* Aumento da auto-estima, trazendo o reconhecimento das próprias qualidades;
* Reconhecimento do Feminino para além do papel de mãe;
* Conexão com a capacidade de buscar recursos internos para apaziguar as situações dolorosas, vividas no contato com o Self;
* Percepção de dificuldades oftalmológicas e neurológicas por parte de algumas mulheres atendidas, possibilitando encaminhamento para avaliação clínica e tratamento;
* Aprendizado de técnicas artesanais, retirada da vivência de construção artesanal, possibilitando confecções outras, de forma a favorecer a produção independente, podendo promover um aumento da renda familiar;
* Descoberta da possibilidade e aptidão de desenvolvimento de trabalhos artesanais por parte de várias mulheres atendidas.
O Projeto vem sendo desenvolvido na Casa Ronald Mc Donald semanalmente, às 3ª f, das 17:45 às 19:00 h, desde agosto de 2005.
Este foi idealizado por Ana Luisa Baptista Coordenadora dos atendimentos em Arteterapia a Crianças e Adolescentes, Co-Coordenadora e Supervisora do Projeto Formas Marias de Ser, ambos do Setor de Educação e Apoio Psicossocial da Casa Ronald Mc Donald. O Projeto Formas Marias de Ser conta com a Coordenação Geral de Rosângela Esper, Arteterapeuta credenciada à AARJ, tendo a participação de Célia Lopes, arteterapeuta em formação pelo Incorporar-te: Espaço Terapêutico Corpo Artes, em curso credenciado à AARJ e de Edna Marinho, voluntária assistente no apoio à Equipe.
No IX Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia Pediátrica e II Encontro Internacional de Psico-Oncologia e Cuidados Paliativos, realizado em maio de 2006 em São Paulo, o Projeto recebeu o prêmio de melhor Tema Livre, na categoria Criatividade em Psico-Oncologia.
Outras Informações:
Ana Luisa Baptista Rosângela Esper
Cons: (21) 2549-3912 Cons: (21) 2549-3912
Residência: (21) 2522-0433 Residência: (21) 2236-5066
alb@incorporarte.psc.br ro_esper@terra.com.br
écnicas Lúdicas de Intervenção Psicológica com Crianças Submetidas ao Transplante de Medula Óssea
Andréa Lino e Silva Cunha, Patrícia Marinho Gramacho - Universidade Católica de Goiás - Departamento de Psicologia
Resumo: O processo de hospitalização em Pediatria é particularmente significativo, uma vez que gera no desenvolvimento cognitivo, psíquico e biológico da criança, uma quebra significativa. No caso de crianças submetidas ao Transplante de Medula Óssea, o medo do desconhecido e os sentimentos referentes à situação de isolamento são intensificados pela iminência de morte, pelos estressores ligados às diferentes fases deste procedimento e à qualidade de vida em TMO. Este trabalho buscou verificar quais as técnicas lúdicas que poderiam servir como instrumento de intervenção do psicólogo hospitalar neste contexto, tendo-se observado que embora se enfrente condições intensas de confinamento, angústia diante da espera, e isso tudo em meio a um ambiente frio dentro da Unidade de TMO é possível oferecer um atendimento humanizado e de qualidade para as crianças internadas, na tentativa de amenizar o sofrimento causado pela própria doença. Os dados colhidos demonstraram que as condições emocionais da família na etapa prévia ao transplante são fundamentais para a integridade psíquica tanto do paciente quanto de seu acompanhante durante a internação na Unidade de TMO. A intervenção psicológica completa, envolvendo desde a avaliação prévia até o preparo para a alta, se mostrou extremamente valiosa para atendimentos mais eficazes e bem-sucedidos.
Palavras-chave: crianças hospitalizadas, situação de isolamento, principais estressores, qualidade de vida, transplante de medula óssea.
É acreditando na possibilidade de realizar nossos sonhos que despertamos a energia e a criatividade para irmos à luta e transformarmos o mundo. Desejamos um Feliz Natal e que possamos, em 2007, encontrar novos caminhos que nos aproximem cada vez mais e nos levem mais perto à concretização de nossos planos e ideais.
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