Elisa Maria Perina
Natal: tempo de dar e receber presentes, de renovar os sonhos e as esperanças, de celebrar o milagre da vida e de deixar brotar o que de mais sublime o ser humano tem dentro de si: o amor e o perdão, únicos elementos capazes de transformar vidas, refazer laços e significar ou re-significar a existência.
A SBPO presenteia a todos os seus sócios, através do primoroso trabalho desenvolvido pela Vice-Presidente Márcia Stephan, em conjunto com a diretoria e colaboradores, com o novo site, totalmente reestruturado e multifuncional. Através de portais interativos e dinâmicos oferece maior diversidade de temas relacionados à área da psico-oncologia, nos brinda com possibilidades de palestras, conferências, que irão implementar os conhecimentos e possibilidades de intercâmbio com profissionais de todo o país. Além disso, pretendemos que a página de cada regional contemple as diversas atividades desenvolvidas pelos diferentes Estados que a compõem, divulgando cursos, seminários, grupos de estudos e discussão, além das pesquisas e referências de profissionais certificados pela SBPO.
Quero agradecer a todos que contribuíram para o desenvolvimento, crescimento e fortalecimento da SBPO, e desejar que as inúmeras ações voltadas para o alívio e conforto do sofrimento humano, revertam-se em bênçãos de luz e renovação de esperanças. Desejo, ainda, que cada um, de acordo com seu jeito especial de ser, encontre uma forma de acender uma luz da psico-oncologia em sua cidade, em seu Estado ou na sua região. Assim, nosso próximo Natal reluzirá em todos os pontos do País.
Que a chama da Vida, do Amor e do Cuidado jamais se apague dentro de cada um de vocês e que, por muitos anos, continue iluminando caminhos e jornadas daqueles que, por algum momento em suas vidas, se deparam com a escuridão e medo.
Seja sempre uma estrela na constelação do cuidado em psico-oncologia.
Feliz 2008 pleno de realizações.
SOUZA, W.A.B.1; CANELLA, P.R.B.2; JURBERG, M.B.2
1. Hospital Mário Kroeff / Rio de Janeiro RJ Brasil
2. Universidade Gama Filho / Rio de Janeiro RJ - Brasil
Introdução: O câncer de mama é uma doença complexa e o seu tratamento envolve grande gama de procedimentos multidisciplinares e de potencialidade ainda não completamente determinados. Desde a evolução das cirurgias radicais, no início do século, às modernas intervenções terapêuticas, as taxas de sobrevida e a qualidade de vida das mulheres portadoras de neoplasia de mama têm melhorado. No entanto, a angústia gerada pelo diagnóstico do câncer e o tratamento, apesar da evolução da medicina, ainda continua presente nas mulheres acometidas pela doença. Considerando o impacto sofrido frente ao diagnóstico e a perda da mama - órgão esse, repleto de significados desde os primórdios da humanidade, símbolo de feminilidade, erotização e maternidade, constituindo-se também como principal característica sexual secundária -, optamos em executar uma pesquisa a fim de verificar o impacto pelo qual passam a mulher e seu parceiro frente ao processo vivido.
Objetivo: Promover o resgate e a melhoria da vida sexual do casal diante das implicações advindas do câncer e da mutilação da mama.
Metodologia: O estudo constou de entrevistas semi-estruturadas, com dez casais, de tal forma que cada parceiro tivesse seu espaço reservado para respondê-las. Utilizamos a Técnica Análise de Conteúdo, procurando identificar as unidades temáticas que se mostraram relevantes à compreensão do papel da mulher e do homem diante do diagnóstico do câncer de mama e da resultante mutilação.
Resultados: Os resultados encontrados mostraram que, apesar do impacto sofrido durante o processo, as relações afetivo-sexuais não foram totalmente prejudicadas. A qualidade da vida sexual, o desejo e o prazer na relação sofreram alterações advindas do processo de adoecimento decorrente do diagnóstico de câncer e da mastectomia. As mulheres passaram por sentimentos de revolta, medo, vergonha, tristeza e baixa da auto-estima, o que dificultava o encontro sexual. O parceiro sofreu com o padecimento das esposas durante o processo terapêutico mas, a longo prazo, a vida sexual do casal não foi significativamente comprometida.
Conclusão: Face ao trabalho exposto, percebeu-se a importância da criação de um Grupo de Apoio às mastectomizadas, favorecendo a troca entre as mulheres e informando-as a respeito da existência da prótese de silicone e uma possível reconstrução de mama no futuro; estruturando, assim, modelos de intervenções psicossexuais que favoreçam um melhor approach às mulheres e aos casais que vivenciam o câncer e a mutilação.
Palavras-chave: Câncer de mama; mastectomia,sexualidade;casal
FONTOURA, A.M.T.; GUIMARÃES, R.J.; ROCHA, A.R.; SOUZA, W.A.B.1
1. INCA Instituto Nacional do Câncer (HCII Unidade de Oncologia Ginecológica) RJ Brasil
Introdução: Em toda existência do homem, o adoecer e o morrer aparecem como grandes fobias existenciais e a morte, enquanto possibilidade real, é vivenciada sempre que há um diagnóstico de câncer envolvido. O câncer, neoplasias malignas que se caracterizam por uma proliferação anormal e desordenada de um determinado tecido, que passa a agir de forma autônoma e anárquica, é avaliada segundo critérios de estadiamento, a partir do qual será indicado o tratamento mais adequado cirurgia, quimioterapia e/ou radioterapia (Tele ou Braquiterapia). O presente trabalho busca relatar os efeitos de uma intervenção grupal a pacientes com câncer ginecológico e com indicação do tratamento de Radioterapia, no sentido de elaborar os sentimentos e representações da doença para um melhor enfrentamento e adesão ao tratamento. Diante desse cenário, em 2003, foi iniciado um trabalho de suporte psicológico, através de grupos de escuta às pacientes da oncologia ginecológica que tinham como possibilidade de tratamento a Teleterapia e/ou Braquiterapia.
Objetivo: Possibilitar a elaboração dos mitos e fantasias que envolvem o adoecer de câncer e tratamento radioterápico; abrir canais de expressão de suas angústias, dúvidas e medos; e, reforçar o atendimento ambulatorial potencializando, assim, essas mulheres para o enfrentamento dessa nova etapa de suas vidas.
Método: Grupos de Suporte Psicológico, realizados duas vezes por semana antes do início do tratamento, com freqüência de 5 a 9 pacientes por grupo onde observamos os relatos das pacientes sobre o impacto do diagnóstico de câncer, as informações obtidas sobre o tratamento de Radioterapia e suas expectativas futuras.
Resultados: Apesar do avanço da Medicina e das novas descobertas tecnológicas na área da saúde, podemos dizer que a associação entre câncer, sofrimento e morte ainda é muito forte, aparecendo em várias falas e mobilizando muitas pacientes, fazendo com que o momento do diagnóstico seja vivenciado com muita angústia. O mito do avanço da doença e a expectativa da remissão dos sintomas faz com que o início do tratamento de Radioterapia seja aguardado com bastante ansiedade. Observamos que o tratamento ocasiona várias mudanças no dia-a-dia das pacientes, principalmente, com relação a sua autonomia e independência, levando-as a lidar com a perda do controle de suas vidas e com a necessidade de serem cuidadas. Nesse momento, vários sentimentos surgem relacionados à vivência da doença e tratamento, relação familiar, sexualidade e a representação do ser mulher.
Conclusão: Tais sentimentos influenciam a sua forma de vivenciar o tratamento. Isso acentua-se diante do tratamento Radioterápico, que como a doença, carrega vários tipos de fantasias e mitos que devem ser desconstruídos para a obtenção de um melhor resultado e, conseqüentemente, melhor qualidade de vida. Nesse sentido, o grupo facilita a expressão e elaboração desses sentimentos, sendo um espaço de acolhimento e suporte emocional importante para uma maior conscientização da doença e motivação para o tratamento.
Palavras-chaves: Mulher, Câncer Ginecológico, Radioterapia e Qualidade de Vida.
Katia Cappellaro
Ao longo dos séculos, o atendimento prestado pelos serviços hospitalares sofreu significativa evolução. O filósofo francês Michel Foucault, referência nessa análise, entende que o hospital como instrumento terapêutico é uma invenção relativamente nova, que data do final do século XVIII. No início do século passado, o hospital era utilizado como instituição de assistência aos pobres, de separação, exclusão e isolamento.
A consciência de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar aparece claramente em torno de 1870, sendo caracterizada por uma nova prática de intervenção terapêutica organizada, disciplinada e hierarquizada. Somente após a segunda metade do século XX, que as instituições hospitalares começam, timidamente, a abordar o tema Qualidade de Vida e por conseguinte a utilizarem a expressão - Cuidado.
A continuação deste processo implicou numa abertura multidimensional do saber em direção a outros lugares de produção do conhecimento; fomentando a redefinição dos valores que governam as práticas do tratamento oncológico. Surge então neste campo a introdução de novos conceitos como integralidade, multidisciplinaridade, multiprofissionlidade, humanização, que nada mais são do que a necessidade implícita do saber integrado.
O saber fazer integrado abarca diversos conhecimentos, e se antagoniza a lógica do pensamento reducionista, que segundo MORIN (1996), consiste em recortar ao máximo o que está se estudando, para facilitar sua manipulação, sendo que por meio dessa dissecação minimizadora, se desmantela o objeto para logo depois reconstruí-lo, chegando posteriormente à expressão de que o todo é a soma das partes.
Tal antagonização, utilizada como organizadora de práticas, favorece o cuidado e para sua efetivação, cada setor contextualiza-se como equipe, a fim de contemplar o atendimento global nas diferentes etapas do tratamento oncológico, constituindo então uma equipe multiprofissional.
A complexidade e a variabilidade dos problemas suscitados pelo tratamento oncológico, em instituições que consideram não somente os aspectos clínicos, mas também os impactos sociais, psicológicos e econômicos, associados ao câncer as induz a lançarem mão do recurso da multiprofissionaridade.
Poderíamos definir equipe multiprofissional no tratamento oncológico como sendo um grupo de diferentes profissionais que estabelecem uma relação recíproca, através de um processo consensual, que favorece as intervenções técnicas e humanísticas de seus diferentes atores, para que se dê o cuidado, reunindo competência técnico-científica e humana. Atuando em diversos momentos, ao diagnóstico e durante a terapia, minimizando os efeitos imediatos. Após seu término, para a prevenção de seqüelas futuras, sejam elas orgânicas ou emocionais, ou finalmente quando não há mais possibilidade de cura, no acompanhamento do paciente e família no processo de luto.
Desta forma introduz-se à prática oncológica o processo de humanização. Humanizar significa tornar humano, em sentido estrito, mas situado no contexto presente, significa tratar os pacientes como gente, respeitá-los como sujeitos de uma dignidade especial e senti-los como pessoas, potencialmente iguais a nós próprios, ou seja, simplesmente respeitar a individualidade e a dignidade inerentes aos seres humanos. Hoje, mais que nunca, o humanismo está orientado para o respeito aos direitos humanos e sua efetivação para todas as pessoas.
Com maior amplitude o termo humanizar pode abranger os conceitos de humanismo e de humanitarismo. Neste sentido amplo, o termo humanização inclui o humanismo, que pode ser definido como uma tendência doutrinária progressista de pensar a sociedade, caracterizada pela defesa da dignidade, da liberdade e da plena realização da personalidade e dirigida para fomentar a satisfação das necessidades individuais e sociais dos seres humanos.
Outra expressão vivenciada na prática cotidiana das equipes é o termo integralidade, que nada mais é que um conceito em construção, que tem seu modo de atuar democrático, representa uma atitude de respeito e se expressa no compromisso ético das relações entre gestores, profissionais e usuários, e para que se efetue há de se romper o modelo médico centrado e introduzir uma nova forma de trabalho, com espaço a consesualização.
Como produto do trabalho multiprofissional sobrevida por si só não basta. A verdadeira cura exige alcançar, se possível, todo o potencial biológico, psíquico e social ao qual o indivíduo estava preparado para atingir quando foi interrompido pela doença. Para isto a prática assistencial deve ser organizada através de programas de constituição multiprofissinal que devem obedecer estratégias específicas, consensualizadas em espaços de discussão e negociação podendo se dar através de reuniões periódicas, e para que se mantenha na linha do cuidado não pode perder de vista norteadores como: acolhimento, eficiência e resolutividade.
Neste contexto, a importância das equipes constituídas para o tratamento do câncer é inquestionável, pois aglutina diversos saberes num mesmo local, proporcionando a ação de profissionais com foco do conhecimento dirigido ao câncer.
Somos testemunhas da história, vivenciamos o percurso da saúde em seu período mais fecundo. Sentimos no dia a dia a dificuldade de se estabelecer um novo paradigma.
Nosso maior desafio?
O de termos pertencido a dois séculos.
As fórmulas ?
Surgirão na dinâmica deste exercício, proporcionais a força de nossas convições!
Realizar um novo modelo é antes de tudo exercitar a capacidade de fecundar e gerar estas intenções.
Bibliografia
Microfísica do poder / Michel Foucault; organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1979.
Malta DC & Merhy EE. A micropolítica do processo de trabalho em saúde, revendo alguns conceitos. Revista Mineira de Enfermagem 7(1):61-66, jan./jul, 2003.
Merhy EE & Cecílio LCO. A integralidade do cuidado como eixo da gestão hospitalar. Unicamp, Campinas. Mimeo. 2003.
Qualificação da Saúde Suplementar. Nova Perspectiva no processo de regulação .; Agencia Nacional de saúde suplementar (Brasil), Programa de qualificação em saúde suplementar :-Rio de Janeiro: ANS 2005. [citado em 10 março 2006]. Disponível em: http://www.ans.gov.br/portal/site/_qualificacao/pdf/texto_base.pdf
Cecílio LCO (org.). Inventando a mudança na saúde. Hucitec, São Paulo. 1994.
Peduzzi M. Equipe multiprofissional de saúde: a interface entre trabalho e interação [Tese]. Campinas: Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas; 1998.
Volnei Garrafa. Multi-inter-transdisciplinariadade, comcplexidade e totalidade concreta em bioética. [citado em 14 junho 2006]. Disponível em: www.bioetica.catedraunesco.unb.br/htm/complexidade.pdf.
Katia Cappellaro
Dentista - Responsável pelo Setor de Odontologia do Centro Infantil Boldrini
Coordenadora da Equipe Multiprofissional do Centro Infantil Boldrini
Coordenadora da Comissão da Educação Continuada
Membro da Comissaõ de Orientação de Ensino e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Boldrini
Elizabeth Ranier Martins do Valle
Os outros filhos, durante o tratamento de câncer de seu irmão, geralmente, percebem-se "deixados de lado", podendo manifestar revolta com a proteção e com a atenção especial que os pais dão à criança doente.
" O Flávio (9 anos, irmão mais velho) tá revoltado...Ele não se conforma com essa situação, que tá sem pai e sem mãe... Eu estou sentindo muita rejeição dele...Acho que ele pensa que fui escolher justo agora que ele tá de férias pra ficar longe dele (no hospital, com o irmão)...O pai já explicou que é porque o Rafael tá doente tem que ficar no hospital, mas ele não compreende" ( mãe de Rafael, 5 anos).
Portanto, além de todas as dificuldades e da agressividade do tratamento que é vivenciada pelos pais, outro problema que eles têm que enfrentar é com os demais filhos que costumam manifestar: ciúmes do irmão doente, pois a família acaba se voltando mais para a criança que necessita de tantos cuidados; carência afetiva, pelo fato de, com grande freqüência, os pais, ou pelo menos um deles, ter que se ausentar acompanhando seu filho doente ao hospital para o tratamento, às vezes mesmo se internando com ele, passando períodos afastados do convívio com os demais familiares; ambivalência afetiva em relação ao irmão doente, uma vez que podem experimentar um misto de sentimentos contraditórios para com ele: dó, raiva, rejeição, vergonha de seu aspecto físico, preocupação, tristeza, dentre outros (Pedrosa & Valle, 1999). Os pais sentem-se tão assoberbados por tantas dúvidas e temores ao cuidar de seu filho doente que quase nunca se sentem preparados para lidar com os problemas dos outros filhos ou manter com eles uma interação suficientemente adequada, de modo a poder aliviar suas tensões. O irmão de um criança com câncer, pelo afastamento em que se vê lançado, costuma tecer fantasias sobre o tratamento e seus procedimentos.
É comum também, durante o tratamento, o irmão sadio apresentar alguns sintomas, tais como dor de cabeça, dor de barriga, para "chamar a atenção" dos pais sobre si. A falta às aulas, alegando os sintomas mencionados, é outro recurso utilizado, que acaba por culminar numa queda do seu desempenho escolar. É preciso que a equipe de saúde fique atenta a essas questões e possa, efetivamente, propor condições para amenizar essa situação : permitir que o irmão visite o hospital e acompanhe um dia de tratamento da criança com câncer, que tenha um atendimento psicológico de apoio e esclarecimento para que possam ser trabalhadas suas dúvidas, seus sentimentos contraditórios e suas preocupações relacionados ao irmão doente.
Atualmente, existem livretos interativos sobre "ter um irmão em tratamento de câncer" que podem ser "trabalhados" com o irmão sadio e que têm se revelado um instrumento de ajuda nessa situação (PEDROSA, 2001).
Alessandra Billi Falcão (1); Cristiane Akagui (1); Raquel de Oliveira e Silva (1); Renata Moldenhauer Minillo(1); Dr. José Roberto Niceto Rezende (2) e Rita de Cássia Macieira (3)
1. Acadêmica do quinto ano da Faculdade de Medicina de Santo Amaro
2. Professor da disciplina de Oncologia da Faculdade de Medicina de Santo Amaro
3. Professora Assistente da disciplina médica de Psicossomática da Faculdade de Medicina de Santo Amaro
Trabalho apresentado no XXVII Congresso Acadêmico Médico da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro (7 a 12 de Agosto de 2006 )
RELATO DE CASO - Caso Clínico
Paciente SMBS, 34 anos, sexo feminino, branca, casada, estudante, natural e procedente de São Paulo, há 7 anos apresentou queixa de cefaléia latejante, de intensidade crescente que, inicialmente, melhorava na administração de analgésicos e ao dormir. Piorava na presença de cheiros fortes. Era acompanhada de edema periorbital, vômitos e fotofobia. O quadro foi diagnosticado como enxaqueca e tratado, sem apresentar melhora. Há quatro anos, houve episódio de síncope. Sendo, então, submetida à realização de Tomografia Computadorizada (TC) de crânio, encontrando lesão fronto-temporo-parietal direita. O diagnóstico de Glioblastoma Multiforme foi confirmado por meio de biópsia. Iniciou-se tratamento através de craniotomia direita com exérese total do tumor. No pós-operatório, foi submetida à radioterapia por um mês e quimioterapia (BCNU e Oncovir) em oito ciclos por nove meses. Não houve reincidiva da doença verificada em última Ressonância Nuclear Magnética (RNM) e TC de crânio.
Perdas
Devido ao quadro álgico, a princípio apresentado, a paciente interrompeu suas atividades. Após a biópsia, teve um quadro de amnésia imediata retrógrada que atualmente manifesta-se de forma leve. Quanto ao impacto do diagnóstico, relata que o médico o disse de forma seca, banal, sem maiores informações durante o almoço e diante de outros pacientes, colegas de quarto. As circunstâncias trouxeram mais insegurança e tristeza do que a própria doença. Mas não manifestou seus sentimentos. Tentou transparecer normalidade. A doença abalou a família, principalmente seu pai. Em seguida, não recebeu tratamento já que, segundo informações médicas, havia impossibilidade de cura. Outro serviço médico é que lhe indicou a cirurgia e demais condutas. Durante a internação, observava que perdia momentos importantes com seus filhos. Eles continuavam as atividades diárias sem sua companhia. Devido a efeitos colaterais medicamentosos teve sua auto-imagem prejudicada. Ficou com os olhos roxos, edema em todo o corpo e dentes em mau estado. Usa constantemente um lenço devido à alopecia generalizada, na tentativa de evitar a exposição e possíveis manifestações por preconceito social. Observou-se labilidade emocional, insônia, alopécia e déficit motor em membros inferiores.
Qualidade de Vida (Recursos de Enfrentamento ou Coping)
Teve grande apoio familiar, principalmente do marido que a acompanhava em todas as consultas, presença da espiritualidade e suporte multidisciplinar. A paciente busca o resgate da auto-estima e a convivência com seu núcleo social (e da vaidade) . Procura eliminar a imagem que a doença traz em seu meio, manifestado pelos olhares curiosos e indelicadezas das pessoas. A forma com que via o câncer mudou. Antes era algo desconhecido, temido e fatal. Atualmente, a vê de forma madura, com compreensão e de que nem sempre é uma doença incurável. Sua recuperação lhe foi considerada como renascimento. E , em Abril de 2006, nasce com êxito seu mais novo filho, uma maternidade não programada, mas vista como sucesso de superação de dificuldades e resgate de valores.
Introdução: Glioblastoma
O Glioblastoma corresponde a mais de 50% das neoplasias primárias do SNC no adulto.3,4 A idade de apresentação costuma variar entre a terceira e a sétima décadas, preferencialmente no sexo masculino. 3-5 Apresenta-se tipicamente com sintomas clínicos relacionados à hipertensão intracraniana ou convulsão. A localização mais relatada é a supratentorial, sem predileção hemisférica, e nos lobos frontais e parietais, seguidos pelos temporais, na substância branca subcortical. 3,4,5 Os locais mais freqüentes de metástases extra-neurais relatadas em ordem decrescente de incidência são: pulmão e pleura, linfonodos, osso e fígado..3 O aspecto histológico é extremamente variável e o diagnóstico é baseado no padrão tecidual, uma vez que, nenhum exame de imagem permite o diagnóstico definitivo. Os tipos histológicos predominantes são o glioblastoma multiforme e o astrocitoma anaplásico. 5 A maioria morre antes dos 2 anos após o diagnóstico e tratamento cirúrgico; e menos de 5 % dos pacientes com glioblastoma multiforme têm uma alta sobrevida. 4 O prognóstico parece variar de acordo com o número, localização e quadro histológico das lesões. 4,5 Demonstrou-se, também, que pacientes jovens, com glioblastoma localizado na região do lobo frontal, com índice de Karnofsky maior que 70, exérese total do tumor, radioterapia e quimioterapia pós-cirúrgica têm maior possibilidades de prolongar a sobrevida. 4
Qualidade de vida.
Desde 1998, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declara que a qualidade de vida (QV) deve ser orientada com a finalidade de avaliar o impacto de diversos fatores que acontecem no universo psicológico, social, espiritual e físico do indivíduo e que possa constituir parâmetros nos estudos de custo/benefício e contribuir com a otimização de recursos disponíveis no sistema de saúde. Abordando a avaliação do estado físico geral, a capacidade funcional para o trabalho, atividade doméstica, interação social no ambiente de trabalho e familiar, função cognitiva em relação à concentração (memória) e finalmente ao estado emocional dos pacientes com respeito à ansiedade e depressão. O câncer e seus tratamentos alteram a QV, gerando estresse, desordens afetivas no trabalho e nos momentos de lazer em 25% a 70% dos pacientes. Destes, 85% apresentam depressão ou ansiedade como sintoma principal, sendo relacionadas, principalmente, à dor. 1 Instrumentos que mensurem a qualidade de vida têm sido desenvolvidos e avaliados, possibilitando modificar variáveis que possam interferir de forma negativa com o acompanhamento do paciente portador de câncer.
Objetivo: Enfatizar a importância da busca da QV na recuperação do paciente oncológico.
Discussão:
O diagnóstico de câncer era como uma sentença de morte e ,sua revelação ao paciente, considerada cruel e desumana, pois retiraria a esperança para enfrentar a doença. 9 No entanto, diversos eventos têm contribuído de forma otimista para mudar esse quadro. Após o desenvolvimento da anestesia no século XIX, da antissepsia que reduziu infecções, a cirurgia tornou possível a cura de muitos cânceres precocemente diagnosticados. No século XX, surge a radioterapia e quimioterapia que associadas à cirurgia conferem maior eficiência no tratamento. O conhecimento sobre o câncer aumentou e mais tipos são curados. A psico-oncologia, surgida em meados dos anos setenta, auxilia o paciente na discussão sobre o diagnóstico e possíveis implicações em sua vida.
Assim, a estruturação atual da medicina possibilitou à paciente o diagnóstico e tratamento do câncer. No entanto, a completa abordagem foi feita analisando, ainda, um segundo aspecto: a adaptação da paciente à doença. Para isso, foi necessário um suporte emocional, espiritual e familiar. Sabe-se que o surgimento do câncer modifica a vida do paciente, do cônjuge e familiares. Diante da doença do paciente, é fundamental o companheirismo, a atenção, a capacidade de entender as dificuldades enfrentadas pelo casal e a comunicação, são elementos facilitadores na superação do sofrimento provocado pelo surgimento da doença. Então, o cônjuge exerce papel essencial na vida da pessoa acometida pela doença grave. 7
Um terceiro aspecto é acerca de questões sócio-culturais. No caso, foi enfrentar o preconceito da comunidade e os estigmas nela inseridos. Além disso, pode-se salientar a preocupação quanto aos efeitos colaterais do tratamento. Como, por exemplo, a alopecia generalizada. Um fator, este, que causa sofrimento psíquico; causa choque/desorganização; incapacidade inicial de reação; traços depressivos.8 Daí a importância do resgate da vaidade e , conseqüentemente, do bem estar da paciente.
No presente estudo, constatou-se a importância de não se retirar a esperança do paciente oncológico, mesmo se tratando de um tumor como o Glioblastoma Multiforme, em que o prognóstico é delicado e dependente de diversos fatores. Destacando o papel da abordagem médica na qualidade de vida do paciente desde o início da doença.
A paciente enfrentou o impacto do diagnóstico, a doença, seus estigmas, efeitos e seqüelas do tratamento, a incerteza do prognóstico e recorrência através de múltiplos aspectos coroados com a nova maternidade, permitindo o resgate biológico, pessoal, afetivo e social.
Conclusão: Conclui-se, portanto, que embora o tratamento do paciente oncológico vise à cura ou alívio por processos paliativos, o sucesso da terapêutica será incompleto se não houver valorização da qualidade de vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Rever segundo normas de Vancouver
Qualidade de vida em pacientes neoplásicos: estudo transversal ( 1)
Componente oligodendroglial e neuronal em glioblastomas: possível relação com o prognóstico (2)
Estudo através da ressonância magnética de 67 casos de glioblastoma multiforme e a ocorrência de metástases (3)
Larga sobrevida en 5 pacientes con astrocitomas malignos (4)
GLIOMAS MÚLTIPLOS (5)
Avaliação da qualidade de vida em pacientes submetidos à
quimioterapia ambulatorial no Hospital Heliópolis(6)
A INFLUÊNCIA DA CONJUGALIDADE NA SUPERAÇÃO DOS EFEITOS BIOPSICOSSOCIAIS PROVOCADOS PELO CÂNCER Campos, M. A. N.1; Vilela, A. J.1; Espindula, J. A.1; Dias, C. A.1 - 1UNIVALE FHS (7)
O SIGNIFICADO DA ALOPECIA PARA MULHERES COM CÂNCER DE MAMA EM TRATAMENTO QUIMIOTERÁPICO ADJUVANTE Wisintainer, M. R.1 - 1PUC-RS-EAD Psicooncologia (8)
Holand, J. C ,PSYCHOLOGICAL CARE OF PACIENTS: PSYCHO-ONCOLOGY S CONTRIBUTION, journal of Clinical Oncology, vol 21, ?23s , 2003: pp 253s-265 (9)
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