Palavras do Presidente
No dia 1º de maio deste ano estaremos comemorando o décimo aniversário de fundação da SBPO. Consideramos este evento de grande importância, já que é um marco que assinala uma história em construção. Acontecimentos dessa natureza devem ser celebrados, pois nos trazem a noção de quem somos como grupo que tem construído um caminho.
Penso que vale afirmar que a história da SBPO não começa no momento de sua fundação, mas desde o instante em que profissionais que já trabalhavam na área perceberam a necessidade de se reunir para discutir idéias e trocar informações a respeito de suas práticas.
O Primeiro Encontro Brasileiro de Psico-Oncologia aconteceu nos idos de 1989 em Curitiba, presidido pelo médico Luis Pedro Pizzatto. Naquele momento plantava-se a semente do que viria a ser, poucos anos depois, a SBPO. Deste encontro ficou, entre outras, a idéia de que nos reuníssemos a cada dois anos em encontros nacionais.
O Segundo Encontro Brasileiro só pode acontecer três anos depois, em 1992 em Brasília. Foi presidido pela Profa. Dra. Maria da Glória Gimenes. Aconteceu no campus da Universidade de Brasília. Neste encontro foram iniciadas as primeiras discussões com vistas à fundação de uma Sociedade que agregasse os profissionais que trabalhavam em Psico-Oncologia, defendendo seus interesses bem como contribuindo para o delineamento desta nova área de atuação profissional.
Sua fundação propriamente dita, somente aconteceu no III Encontro Brasileiro e I Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia, realizado em São Paulo em 1994 e presidido pela Profa. Dra. Maria Júlia Kovács. Nesta ocasião foi eleita a primeira Presidente da SBPO, a médica Maria Teresa Barreto de Botelho Monteiro, profissional residente em Aracaju, Sergipe. Iniciava-se ali nossa Sociedade, já atendendo a uma das idéias que a vem norteando sempre, a de que sua Diretoria seja sediada em diferentes regiões de nosso país.
Coube à Maria Teresa Barreto a missão de iniciar a estruturação de nossa Sociedade. Assim foi elaborado o primeiro Estatuto da SBPO e tomadas as medidas administrativas necessárias para seu registro oficial.
Não há como não pensar que a história da SBPO não esteja também estreitamente ligada a história de seus congressos. Assim, no II Congresso Brasileiro realizado em Salvador em 1996, foi eleito como Presidente da SBPO o psicólogo Paulo Cyrillo, em cuja gestão houve uma sedimentação administrativa da Sociedade. Este congresso também decidiu a sede do encontro seguinte, que seria realizado na cidade de Goiânia.
Em 1998 o Congresso de Goiânia, presidido pela Psicóloga Ana Maria Caran Miranda, elegeu a Profa. Maria da Glória Gimenes a terceira presidente da SBPO. Em sua gestão contatos políticos foram feitos com vistas a ampliar a atuação da SBPO, inserindo-a no panorama nacional no que se refere ao estabelecimento de políticas sobre o câncer. Assim nossa sociedade passou a ter assento no Grupo de Assessoria Técnica (GAT) do Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
O Congresso seguinte deu-se na cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, no ano de 2000 e foi presidido pela enfermeira Eliane Rabin. Nesta ocasião a Psicóloga Ana Caran Miranda foi eleita a quarta presidente da Sociedade e sua sede passou a ser em Goiânia. Nesta gestão novas medidas foram tomadas na tentativa de aperfeiçoar o sistema administrativo de nossa Sociedade.
O congresso seguinte aconteceu em 2002 na cidade de Recife, Pernambuco. Este encontro foi presidido pela Enfermeira Edna Bispo. Este congresso elegeu a atual Diretoria da SBPO que, em função de uma oportunidade que nos pareceu muito importante e em caráter excepcional, resolveu, ouvido o Conselho Superior de nossa entidade, antecipar a data do Congresso seguinte para novembro de 2003. Assim, como é do conhecimento de todos, realizamos um conclave de congressos, estando unidas neste evento muitas outras sociedades que representam os profissionais que trabalham com câncer, como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, a Sociedade Brasileira de Cancerologia, a Associação Brasileira de Cuidados Paliativos, a Sociedade Brasileira de Enfermagem Oncológica, além de outras instituições e eventos.
Só este fato, no nosso entendimento, já significa a consolidação do trabalho de tantos companheiros que, compondo as diretorias dos presidentes acima citados, muito têm dado de si na construção da SBPO.
No próximo dia 30 de abril e 1º de maio estaremos, num evento que será realizado na cidade de São Paulo, celebrando estes dez anos de história. Será também uma oportunidade para homenagearmos, através dos ex-presidentes da SBPO, todos aqueles que têm se empenhado na defesa dos interesses de tantos outros que dedicadamente militam nesta nossa área de trabalho.
Vicente A. Carvalho
Boletim SBPO - Abril/2004
O PAPEL DOS AGENTES DE CURA
Rita de Cássia Macieira
Ser um agente de cura é favorecer a criação de um espaço curativo, pela utilização de técnicas e habilidades específicas aprendidas, com a convicção da existência de um poder auto-curativo inerente a cada indivíduo. Acima de tudo, é estar aberto a uma jornada de auto-conhecimento e auto-transformação, através de complexas interações.
Ao se falar de agentes de cura ou terapeutas, não estamos aqui falando em alguém que detém um saber único, dono de todas as respostas, capaz de remover a doença sem que seja necessário ao menos um esforço do outro, em direção á sua própria transformação interior. O agente de cura na visão aqui apresentada, é alguém que possui um conhecimento técnico específico e habilidades praticas desenvolvidas para auxiliar o outro a encontrar seus próprios potenciais de auto-cura, mas que compreende as limitações de seu papel. Em sua esfera de trabalho, lida mais do que com um corpo adoentado, mas com um ser em seu caminho de auto-transformação e auto-realização. O corpo é apenas uma parte, embora importante, deste conjunto harmonioso que é o ser. Assim a cura, mais do que a remoção dos sintomas, transcende o corpo e representa uma resposta responsável em direção à plenitude.
Terapeuta e paciente estão unidos por sua humanidade e conseqüente mortalidade. Mas em seu papel de agente de cura, disposto a lidar com suas próprias feridas, o terapeuta é um facilitador do processo do outro, despertando-lhe a sabedoria interior que reconhece o caminho da cura. É alguém que confia na existência da energia interna para transformação, aprimoramento e evolução espiritual, presentes em cada ser. Isto exige fé e também humildade do terapeuta em se colocar como intermediário e instrumento do Universo para ajudar a vida a fluir.
Reconhecer a energia curativa presente no outro é propiciar a formação de um vinculo terapêutico de responsabilidades compartilhadas. Desta forma, mais do que detentor de conhecimentos de técnicas e procedimentos, o agente de cura se transforma em co-terapeuta, favorecendo a não dependência e devolvendo ao outro a força e o entusiasmo pela sua própria vida. Tal relação possui o potencial de nos reaproximar das nossas próprias capacidades autocurativas, daquilo que há de sadio em nós, de nossos valores enquanto indivíduos atentos a outro ser humano.
Muitas vezes, o tratamento do câncer rouba ao paciente o poder de decisões relativas ao seu bem-estar, quando não e também acerca de sua vida. No papel de co-terapeuta, o agente de cura restitui e promove a liberdade de escolhas factíveis, o que propicia a formação de um campo energético de possibilidades de cura. Funciona ainda como catalisador do renascimento do ser, na medida em que auxilia a cura de feridas emocionais antigas e a expressão de sentimentos contidos de raiva, tristeza, rejeição, abandono e outros, unindo aspectos de sombra e luz. Para isto, pode lançar mão de todas as técnicas e recursos nos quais foi habilitado. Mas nada substitui um coração compassivo e amoroso, o qual é conquistado com o equilíbrio entre as dimensões física, emocional, intelectual e espiritual.
Para Elizabeth Kubler-Ross são quatro as qualidades fundamentais necessárias a um agente de cura: confiança no poder curativo presente em cada célula do corpo; fé em seu potencial de canalizar energias curativas através técnicas; humildade para perceber-se como um ser também em crescimento, para servir de canal ou intermediário para a energia curativa ou apenas como um catalisador do processo, além de reconhecer o saber do outro em relação a si mesmo; e amor a si mesmo, ao outro e a seu trabalho.
Talvez deva se acrescentar ainda, a compaixão na solidificação desta construção chamada cura. A compaixão pode ser o cimento que une confiança, fé, humildade e amor com as técnicas aprimoradas pelo estudo e dedicação. Através desta virtude representada pela vontade genuína de minorar o sofrimento do outro, abre-se um espaço sagrado de conexão, compreensão e presentificação da relação.
Assim, o trabalho de um agente de cura reflete sempre o trabalho que ele faz consigo mesmo, no cerne de sua humanidade. É o resgate do que há de mais humano e mais divino em si, com a coragem de amar sem apego. O relacionamento terapêutico envolve um ritual de intimidade, de expectativa positiva, de valoração do pessoal e do transpessoal e até mesmo, do toque amoroso. Estes constituem fatores vitais na cura não apenas do nível físico, mas também do emocional e espiritual.
Depressão e Câncer
Depressão em Pacientes Terminais
Vicente A. de Carvalho
Sabidamente pacientes de câncer apresentam uma incidência de depressão maior do que a população geral (Wellisch, D. K. 2002). Pacientes terminais também apresentam uma alta incidência de depressão e a despeito deste fato somente 3% destes pacientes recebem tratamento medicamentoso (Goldberg RJ, et al. 1985 in Breitbart, W, 2000) .
Algumas hipóteses podem explicar o fato destes pacientes serem medicados numa percentagem tão baixa. Entre estas hipóteses esta o fato de que aqueles médicos que geralmente vêem estes pacientes consideram a depressão um evento natural na fase de terminalidade. Desta forma, avaliam o estado de depressão não como tal, mas como sentimentos naturais entre aqueles que estão morrendo, minimizando assim o significado da depressão. Além disso, os clínicos que atendem a estes pacientes muitas vezes não se acham aptos a medicá-los numa abordagem psiquiátrica, ou, quando o fazem, nem sempre têm a experiência necessária no manejo de drogas ou doses, podendo sub-medicar estes pacientes, não obtendo então os resultados possíveis.
Quando se trata de diagnosticar depressão em pacientes de câncer podemos adotar como critério o que preconiza o DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais 4ª Edição) . São os seguintes os critérios propostos pelo DSM-IV:
Sintomas centrais: Humor Deprimido e Anedonia.
Sintomas secundários: perda ou ganho de peso, insônia ou hipersônia, agitação ou retardo psico-motor, fadiga ou perda de energia, diminuição de auto-estima ou sentimentos de culpa inapropriados, diminuição da habilidade de pensar ou de se concentrar e pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida, planejamento suicida ou tentativa de suicídio.
Para o diagnóstico de Depressão Maior é necessária a presença de um dos sintomas centrais e pelo menos quatro dos sintomas secundários, Para firmar este diagnóstico ainda é necessário que este quadro tenha a duração de pelo menos duas semanas.
No entanto, quando se trata de pacientes de câncer nem todos os critérios propostos pelo DSM-IV mostram-se adequados. Assim, são necessárias algumas adaptações desses critérios. Nos pacientes de câncer os sintomas perda de peso, distúrbios de sono, fadiga ou perda de energia e diminuição da habilidade de pensar ou de se concentrar perdem especificidade, já que podem ser desencadeados por outras causas devidas à doença e não mais à depressão. Esta questão pode ser contornada substituindo-se estes sintomas por outros que possam dar mais precisão ao diagnóstico. Desta forma, perda de peso deve ser substituído pela presença de aspecto deprimido do paciente, a insônia pode ser substituída por diminuição dos contatos sociais, fadiga substituída por sentimentos de auto-piedade ou pessimismo e, por fim, diminuição de concentração ou habilidade de pensar ser substituída por perda de reatividade e dificuldade de se animar.
Mesmo em se tratando de pacientes de câncer em fase terminal devemos também considerar a possibilidade destes apresentarem Distimia e Transtorno de Ajustamento com Humor Deprimido.
O Transtorno Distímico, segundo o DSM-IV, tem como característica essencial, a presença de um humor cronicamente deprimido que ocorre na maior parte do dia, na maioria dos dias, por pelo menos dois anos. Durante os períodos de humor deprimido há ainda outros sintomas que podem estar presentes como apetite diminuído ou hiperfagia, insônia ou hipersonia, baixa energia ou fadiga, baixa auto-estima, fraca concentração ou dificuldade de tomar decisões e sentimentos de desesperança.
Em relação a alguns destes critérios e em se tratando de pacientes terminais com câncer, cabem as mesmas observações já feitas anteriormente. Em relação aos sentimentos de desesperança há que avaliar se se referem ao Transtorno Distímico ou à consciência que o paciente pode ter se sua condição física.
O Transtorno de Ajustamento se caracteriza, ainda tendo-se o DSM-IV como referencial, no desenvolvimento de sintomas emocionais ou comportamentos significativos em resposta a um ou mais estressores psicossociais identificáveis (DSM-IV, p. 589) Deve-se considerar para efeitos diagnósticos que os sintomas se desenvolvam dentro de um período de cerca de três meses após o início dos estímulos estressores. Há que se considerar também uma discrepância entre a intensidade da reação comparada com o elemento estressor. Deve-se levar em conta a existência de um prejuízo significativo no funcionamento social. O Transtorno de Ajustamento com Humor Depressivo é considerado quando há manifestações predominantes de sintomas como depressão, tendência ao choro ou sensação de impotência.
O diagnóstico de Transtorno de Ajustamento com Humor Deprimido é um diagnóstico controverso em Cuidados Paliativos, já que requer uma avaliação subjetiva do que é normal. Se este conceito for aplicado de forma descuidada pode superpsicologizar o paciente, estigmatizando-o.
Devem também ser considerados alguns fatores de risco para a depressão em pacientes terminais como: gênero, idade, história anterior de depressão, apoio social, condição funcional, dor, fatores relacionados à doença, fatores relacionados aos tratamentos e aspectos existenciais.
Em relação ao gênero é conhecido o fato de que mulheres são mais sujeitas à depressão do que os homens, apresentando o dobro de incidência em relação a estes últimos. Segundo Plumb e Holland (1981) e Chochinov, citados por Chochinov e Breitbart (2000) homens são mais prováveis de serem diagnosticados como severamente deprimidos.
No que diz respeito à idade, jovens geralmente apresentam mais depressão quando estão fora de possibilidades terapêuticas de cura do que pessoas idosas. Este acontecimento é atribuído ao fato de que jovens não puderam realizar seus projetos de vida, tendo que vê-los interrompidos. Freqüentemente nestes casos também não puderam atender a algumas determinações biológicas, como a procriação. Jovens que já têm filhos podem também apresentar severas preocupações com o destino de suas famílias após sua morte. Há uma outra hipótese que tenta explicar a maior incidência de depressão em jovens que é o fato destes serem mais atentos a modificações de humor do que pessoas mais velhas, em função de aspectos culturais da atual geração, introduzindo aqui um viez metodológico.
A existência de antecedentes de depressão é um fator a que se deve dar atenção por ser preditiva de maior risco. A depressão pode ser um processo crônico pontuado por remissões episódicas. Pacientes de câncer que apresentam depressões freqüentes têm maior possibilidade de terem tido episódios depressivos na juventude. Doenças como o câncer funcionam como um estressor maior.
Outro elemento que pode influir na instalação de depressão ou seu agravamento é a fragilidade de uma rede social de apoio. Pessoas com estrutura psíquica frágil geralmente têm dificuldade em estabelecer rede social de apoio significativa. Hoje é sabida a importância que o apoio social exerce como elemento modulador de estresse. A experiência de suporte social parece ter importância no processo de ajuste psicológico em pacientes portadores de doenças graves.
Há pacientes que, não querendo se constituir num peso para a família, não expõe ou partilham seus sentimentos e emoções aumentando o isolamento e a depressão. Homens geralmente apresentam maior isolamento social do que as mulheres, além de preocupação com inabilidade para o trabalho.
Pacientes com doença mais avançada têm taxas mais altas de isolamento social quando comparados com aqueles com doença mais localizada. Quando em Cuidados Paliativos estabelecem-se, geralmente, grandes déficits sociais. Nestes casos o efeito regulador de estresse que o apoio social oferece pode ser eficaz apenas até certo ponto, enquanto grandes deficiências não sejam atingidas.
Ajuste emocional, provisão de informações e ajuda instrumental são elementos importantes no atendimento à pacientes de câncer.
Há também que se considerar que o estigma ligado ao câncer faz com que muitas pessoas se afastem dos pacientes de câncer, contribuindo assim para o isolamento social.
A condição funcional do paciente está também associada à depressão. A piora do estado físico pode desencadear depressão. Pacientes em estado mais avançado têm maior possibilidade de ter intercorrências psiquiátricas.
A dor é um outro elemento a ser sempre considerado ao se fazer diagnóstico psiquiátrico. É sempre recomendável que a dor seja removida antes de se firmar este tipo de diagnóstico.
Existem também fatores relacionados à doença, como a localização que pode acarretar maior freqüência de depressão, quer em função de deformidades, quer em função da maior incidência de síndromes paraneoplásicas, como no caso dos tumores produtores de hormônios. Há ainda que considerar que a depressão parece ser mais incidentes em pacientes portadores de tumores cerebrais, numa proporção de três vezes mais do que em outros pacientes com câncer e nove vezes mais do que na população geral. ( Wellisch, D.K., 2002)
Alguns pacientes podem apresentar quadro de depressão em função dos próprios tratamentos. Alguns quimioterápicos e corticosteróides usados no tratamento de câncer podem desencadear quadros psiquiátricos importantes que exijam diagnóstico adequado e intervenção medicamentosa, mesmo em se tratando de pacientes em fase terminal.
Aspectos existenciais têm que ser considerados. Há que lembrar que pacientes que têm consciência do que está ocorrendo nesta fase de suas vidas podem se mostrar deprimidos. É importante que possamos estar alertas a estes elementos e adotarmos uma atitude continente.
O lidar com a depressão no paciente terminal
O tratamento deve contemplar tanto a medicação específica e adequada como abordagem psicossocial.
A abordagem psicossocial poderá ser feita através de psicoterapia individual, psicoterapia de grupo, hipnoterapia, abordagem psico-pedagógica, , relaxamento, biofeedback ou grupos de auto-ajuda.
Sempre que houver a necessidade de tratamento medicamentoso da depressão este deverá estar associado à psicoterapia.
Os profissionais de saúde envolvidos no tratamento do paciente devem manter um contato constante com este, evitando o comportamento tão comum de afastamento.
Para melhor continência temos usado, com sucesso, a técnica da escuta ativa, através da qual, pacientes sentem-se melhor compreendidos em seus sentimentos e emoções, diminuindo a sensação de isolamento.
O profissional de saúde, sobretudo aqueles que têm a possibilidade de lidar com as emoções do paciente, devem manter o foco da abordagem bastante amplo, cuidando de que a morte não seja o único assunto a ser considerado.
Quando se trata do uso de medicamentos estes devem ser adotados, sem que haja prejuízo da abordagem psicoterápica.
Para a escolha do medicamento algumas questões devem ser consideradas, como, por exemplo, qual a expectativa de vida do paciente. Quando a expectativa de vida é de vários meses os antidepressivos tricíclicos podem ser usados. Se a expectativa de vida for apenas de algumas semanas justifica-se o uso de psicoestimulantes de ação rápida. Se a expectativa de vida for de alguns dias ou mesmo de horas, deve-se usar drogas sedativas ou analgésicos narcóticos.
Para o uso dos antidepressívos tricíclicos é importante a análise de risco e benefício. As aminas terciárias, como a Amitriptilina e Imipramina , causam muitos efeitos colaterais. Aminas secundárias, como a Nortriptilina, causam menos efeitos colaterias.
Os efeitos colaterais mais freqüentes destes medicamentos são constipação, retenção urinária, delirium, diminuição da motilidade gástrica, boca seca, taquicardia, arritmias cardíacas e tonturas.
Uma outra classe de antidepressívos, os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS), não apresenta tantos efeitos colaterais, nem necessita de monitoramento, apresentando maior margem de segurança.
Os de uso mais freqüente em nosso meio são a Sertralina, a Fluoxetina, a Paroxetina e a Nefazodona.
Há ainda uma outra classe de antidepresssívos que pode ser considerada, a dos antidepressívos heterocíclicos como a Maprotilina e a Mianserina.
Os Inibidores da Monoamino Oxidase (IMAO) são de uso menos freqüente por poder apresentar efeitos colaterais, como importantes crises hipertensivas, exigindo manejo mais cuidadoso e dieta com várias restrições alimentares.
Os psicoestimlantes são a Dextroanfetamina, o Pemoline e o Metilfenidato, sendo este último disponível em nosso meio.
Outros medicamentos podem ser usados no tratamento de quadros de Transtorno de Humor, quando temos presente mania, como o Carbonato de Lítio e alguns anticonvulsivantes
Em ansiedade os benzodiazepínicos são drogas úteis, havendo várias disponíveis que podem ser escolhidas conforme seu perfil farmacológico, considerado cada caso.
* Trabalho publicado nos Anais do VII Congresso Brasileiro De Psico-Oncologia,
Recife, 03 A 06 de Julho de 2002
BIBLIOGRAFIA
Breitbart, W, et al. Diagnosis and Management of Depresion in Palliative Care, Handbook of Psychiatry in Palliative Medicine, Oxford University Press, New York, 2000) .
Chochinov HM, Handbook of Psychiatry in Palliative Care, Oxford University Press, 2000
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM-IV, Artes Médicas, Porto Alegre, 1995)
Plumb MM, Holland, J. Comparative studies of psychological function in patients with advanced cancer-II. Interviewer-rated current and past psychological symptoms. Psychosomatic Medicine, 1981; 42:243-254.
Wellisch, D.K. et al. Predicting Major Depressin in Brain Tumor Patients, in Psycho-Oncology, (230-238, May-June, 2002
SIMPÓSIO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICO-ONCOLOGIA -10 anos da SBPO
30 de abril - Sexta-feira
20:00 20:20 horas Abertura oficial do evento
Apresentação sobre o histórico e atividades da SBPO nestes 10 anos de existência - Maria Helena Pereira Franco
20:20 21:00 horas Palestra: Sobreviventes do câncer - Vicente A. de Carvalho.
1 de maio - Sábado
MESAS REDONDAS
1. CANCEROFOBIA - 9:00 10:30 horas
Coordenador: Rita de Cassia Macieira
Palestrante: Maria Margarida de Carvalho
Debatedor: Regina Liberato
Debatedor: Luiz Paulo Cotrim
2. PREVENÇÃO EM ONCOLOGIA - 11:00 12:30hs
Coordenador: Vicente de Carvalho
Palestrante: José Temporão
Debatedor: Nise Yamaguchi
Debatedor: Maria Gloria Gimenes
3. ENVELHECIMENTO E CÂNCER - 14:00 15:30hs
Coordenador: Maria Teresa Veit
Palestrante: Maria José Alves
Debatedor: Luis Saporetti
Debatedor: Maria Julia Kovács
4. MIDIA E CÂNCER - 16:00 17:30hs
Coordenador: Maria Helena Pereira Franco
Palestrante: André Perdicaris
Debatedor: a ser confirmado
17:30hs - Comemorações dos 10 anos da SBPO Música e Coquetel.
LOCAL: FUNDAÇÃO ONCOCENTRO DE SÃO PAULO - FOSP
Rua Oscar Freire, 2396 Pinheiros, São Paulo (metrô Sumaré) - SP.
Inscrições sob reserva pelo telefone 11-3052-4925 ou no local (vagas limitadas)
R$ 10,00 Estudantes sócios da SBPO
R$ 20,00 - Sócios da SBPO e estudantes não sócios
R$ 40,00 - Profissionais não sócios
CÂNCER, UM ESTRESSOR TRAUMÁTICO?
Post-Traumatic Stress Disorder in Cancer
Maria Teresa Veit
A evidência empírica da natureza traumatogênica do câncer é discutida em um artigo publicado na revista Psycho-Oncology (vol. 8, nr. 6, pag. 467-554 nov-dec 1999; Meredith Y. Smith, William H. Redd, Caroline Peyser and Dan Vogl), através de revisão da literatura sobre estresse pós traumático em sobreviventes de câncer (pacientes ou familiares).
Os critérios de definição para desordens por estresse pós traumático PTSD (Post Traumatic Stress Disorder) incluem hoje doenças potencialmente letais (ou com alto índice de letalidade), como o câncer, entre os eventos precipitadores de PTSD. Persistem, no entanto, controvérsias conceituais a respeito.
O diagnóstico de PTSD refere-se a níveis severos e incapacitantes de ansiedade e reações fóbicas, manifestas em indivíduos submetidos a experiência traumática. A especificidade diagnóstica é a presença de um trauma precipitador que ocasiona respostas na forma de sintomatolagia psicológica e comportamental, diferentemente de outros transtornos de ansiedade, cujos sintomas são considerados emergências de vulnerabilidades constitucionais pré-existentes. Os critérios para identificação de PTSD atribuem peso igual a aspectos objetivos e subjetivos e definem cinco parâmetros que orientam o diagnóstico diferencial.
A estratégia diagnóstica de excelência preconiza uma abordagem multimodal, com coleta de diferentes tipos de dados, em fontes variadas, por diferentes métodos. Na impossibilidade de um levantamento abrangente e completo, podem ser aplicadas entrevistas clínicas estruturadas ou escalas de medida para sintomas de PTSD, relatados pelo próprio indivíduo.
A controvérsia sobre a inclusão ou não dos casos oncológicos como potencialmente traumatogênicos resulta de aspectos específicos da experiência de câncer (ex. duração, magnitude e controlabilidade da doença) que, por vezes, conflitam com as noções que caracterizam os estressores de PTSD. A diferenças básicas ligam-se ao fato de que, diferentemente de outros estressores de PTSD conhecidos, a experiência do câncer consiste em uma série de eventos que podem estender-se por meses ou anos; a iminência e o grau de ameaça podem variar muito, em função de tipo de câncer, estágio por ocasião da doença e histórico familial; o grau de participação do paciente nas decisões acerca de seu tratamento é incomparavelmente maior do que em outros eventos traumáticos. Entretanto, apesar da variabilidade e especificidade dos aspectos objetivos da experiência oncológica, as respostas subjetivas ao diagnóstico e tratamento incluem, inegavelmente, sentimentos de medo, horror e desamparo, comuns aos traumas já definidos como potenciais geradores de PTSD. Estudos evidenciam que, freqüentemente, sintomas de ansiedade presentes no contexto oncológico constituem-se em manifestações de PTSD, não devendo ser confundidos com depressão ou ansiedade generalizada.
Pesquisas junto a sobreviventes de outros traumas e investigações e evidências empíricas nos casos oncológicos apontam diversos fatores predisponentes, ao PTSD (ex. traços de personalidade, idade, status financeiro e de saúde).
O momento de início e a persistência dos sintomas são fatores críticos na distinção entre resposta normal ou patológica ao estressor.
Os resultados dos estudos revisados sugerem que persistentes respostas semelhantes a PTSD manifestam-se nos sobreviventes e familiares, ao longo das fases de diagnóstico e tratamentos oncológicos. Evidências fenomenológicas consistentes diagnosticam PTSD em grupos de adultos e pais de crianças sobreviventes de câncer (todos menos um, nos casos estudados).
É importante, porém, a realização de estudos adicionais, voltados não apenas à compreensão conceptual do transtorno, mas com propósitos clínicos, subsidiando intervenções efetivas, tanto de natureza preventiva (em presença de fatores predisponentes), quanto curativa (uma vez instalado o transtorno).
Livro do VII Congresso
PSICO-ONCOLOGIA:
O Encontro da Ciência com a Espiritualidade
Coletânea de trabalhos apresentados no VII Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia, realizado em 2002, na cidade de Olinda-PE. Compõe-se de 47 capítulos enviados pelos autores/palestrantes e mantidos em sua forma e conteúdo originais, divididos em três grandes partes, correspondentes aos subtemas do encontro: Câncer, Significados e Desafios; A Arte de Cuidar; e Sobrevivendo ao Câncer.
Leitura indispensável a todos que se interessem pelo assunto, inclusive não profissionais.
Encomendas podem ser feitas através do site da Editora Livro Pleno, pelo e-mail edlivropleno@uol.com.br, ou ainda pelos telefones (19) 3243.2275 - (19) 3243.6441.
Nota: A receita das vendas será totalmente destinada à SBPO.
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