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Ano I - Edição 3 Maio Junho 2004



Palavras do Presidente

Este ano estamos celebrando o 10º aniversário de fundação da SBPO. Como parte das comemorações realizamos um simpósio na cidade de São Paulo, nos dias 30 de abril e 1º de maio, dia da fundação da Sociedade. Tivemos o auditório completo. Na ocasião recebemos vários palestrantes e entre eles o Dr. José Gomes Temporão, diretor geral do INCa – Instituto Nacional do Câncer. Nesta ocasião Dr. Temporão anunciou que a SBPO passa a integrar o GAT (Grupo Assessor Técnico) do CONSINCA (Conselho Consultivo do INCA).



Este fato abre a possibilidade de maior troca entre a Psico-Oncologia e o órgão que, em âmbito nacional, define as políticas referentes às atuações em relação ao câncer em nosso país. Seguramente poderemos levar a essa instância a visão que temos a respeito das demandas que nossa área de atuação apresenta. É uma oportunidade impar que se abre para que possamos trabalhar para seu maior desenvolvimento. Poderemos também levar nossa contribuição para aperfeiçoamento de algumas atuações.



Passos desta natureza solidificam a Sociedade, bem como, confirmam o caminho já percorrido por diretorias anteriores que muito fizeram para desenvolver a SBPO.



Nosso evento contou também com a presença de colegas de outros estados que estiveram conosco, trazendo seu apoio e colaboração. Tivemos colegas de Goiás, Brasília, Rio Grande do Sul, Paraíba e Rio de Janeiro, além de outros vindos de várias cidades do Estado de São Paulo.



Nesta ocasião tomou posse a Diretoria eleita no último Congresso de Psico-Oncologia. A maior parte dos diretores havia sido reeleita, de forma que passaram a integraR a equipe a Psicóloga Maria Jacinta Benites Gomes, como Segunda Tesoureira e Maria Teresa Rebelo, como Presidente da Regional Centro-Oeste da SBPO. Rita de Cássia Macieira, que era Segunda Tesoureira passou a ocupar o cargo de Primeira Tesoureira, substituindo o Psicólogo Paulo Cyrillo.



A nova diretoria ficou constituida da seguinte forma:

Presidente: Vicente Augusto de carvalho

Vice-Presidente: Nise Hitomi Yamagushi

Secretária geral: Maria Helena Pereira Franco

Primeira Secretária: Maria Júlia Kovács

Segunda Secretária: Regina Liberato

Primeira Tesoureira: Rita de Cássia Macieira

Segunda Tesoureira: Maria Jacinta Benites Gomes



Quanto às Regionais houve mudança na diretoria da Regional Centro-Oeste, tendo assumido a Presidência a Psicóloga Maria Teresa Rebello

As regionais ficaram assim constituídas:



Regional Norte: Maria do Socorro Lacerda Gomes

Regional Nordeste: Arli Pedrosa

Regional Centro-Oeste: Maria Teresa Rebello

Regional Sudeste: Jurama Ribeiro de Oliveira

Regional Sul:Maria Heloisa Russomano Fernandes



Aos companheiros que deixam a Diretoria cabe uma menção a respeito de seus esforços e contribuições dadas à Sociedade. Quero fazer uma especial menção ao Psicólogo Paulo Cyrillo, Presidente da SBPO no período de 1994-1996, e que, como membro desta Diretoria, muito contribuiu com seus pontos de vista sempre que estivemos frente a questões delicadas e que exigiam tirocínio. Temos certeza que a Sociedade poderá continuar contando com a colaboração de cada um de seus ex-diretores.



Assim iniciamos nossa última gestão à frente da Sociedade. Temos como planos poder desenvolver maior integração entre os profissionais que trabalham em Psico-Oncologia, bem como, por meio de ações políticas adequadas, criar melhores condições de inserção do atendimento psicológico específico no campo de atenção ao paciente oncológico.

Vicente A. Carvalho

Boletim SBPO - Junho/2004

CÂNCER E ENVELHECIMENTO – SBPO 10 ANOS

Maria Julia Kovács.

1a. Secretária da SBPO

Velhice é uma fase do desenvolvimento com planos e projetos como todas as outras, e que será vivida com base também em escolhas feitas pelas pessoas. Observa-se o aumento significativo do número de idosos em países em desenvolvimento. O envelhecimento possibilita que se processe a integração das experiências da vida e assim compreender sentido da existência. Os que não conseguem realizar esta tarefa tão importante da vida podem ter sentimentos de desesperança e desamparo.

Infelizmente na atualidade, muitos vêem a velhice como antecâmara da morte, como peso para uma sociedade que não sabe como cuidar deles. Em tempos de grande desenvolvimento tecnológico, muitos se sentem inúteis, sem objetivo, sem futuro. A aposentadoria implica para muitos idosos a perda de poder aquisitivo. Para alguns é um tempo sonhado de descanso ou de viagens, e a doença pode interromper estes planos, pela grande perda financeira, por causa dos gastos com tratamentos.

Velhice é a fase do desenvolvimento em que se vive maior número de perdas, tanto de si: físicas, psíquicas, sociais, quanto de pessoas próximas, principalmente perdas de iguais: cônjuge, amigos, com os quais se viveu grande parte da vida. Mais recentemente uma modalidade de perda tem assombrado os idosos, perda dos filhos adultos (perda invertida, e também do cuidador principal.)

O desenvolvimento da medicina traz como conseqüência o prolongamento da vida, entretanto um dos seus problemas é levar ao aumento da incidência de câncer. Nesta fase da vida observa-se a cronicidade das doenças. Observa-se em muitas pessoas que o maior tempo de vida é vivido nesta fase, e para muitos com doenças, acompanhados de sintomas altamente incapacitantes como: dor, fadiga, anorexia, náusea, sintomas digestivos, insônia, entre outros.

Por ser a velhice um período com maior número de doenças ocorre o perigo da naturalização da dor – “é normal que pessoas de idade tenham muitas dores”. Esta atitude implica em uma negligência nos cuidados a estas pessoas.

Muitas doenças provocam profundas alterações na imagem corporal, já iniciada pelo processo de envelhecimento. O câncer e os tratamentos acabam por causar uma desfiguração de maneira ainda mais profunda. Os sintomas podem ser mais intensos e debilitantes pelo próprio envelhecimento: mais cansaço, menos força, problemas alimentares, impotência), entre outros. Muitos pacientes, cujo processo de adoecimento demanda muitos cuidados se sentem como sobrecarga para a família e alguns relatam estar vivendo demais.

Um dos aspectos mais temidos do final da existência é a dependência para as atividades cotidianas que para alguns é mais temido do que a própria morte. Um dos sintomas que é mais assustador e mais difícil de ser cuidado é a demenciação. Este aspecto dificulta a compreensão do processo do adoecimento, tratamento, necessitando explicações mais detalhadas, envolvendo os familiares. O prolongamento da vida, sem preocupação com a sua qualidade pode favorecer um dos grandes medos arraigados em nossa sociedade de que a morte por câncer é sempre acompanhada de muita dor e sofrimento.

O câncer pode provocar sofrimento em várias esferas da existência envolvendo, além de problemas somáticos: isolamento, sensação de abandono, não ver sentido na vida, dependência de cuidados de outras pessoas para todas as atividades. Trata-se de um viver em agonia tanto para os pacientes, quanto familiares, o que pode levar anos. Alguns idosos podem se sentir “desinvestidos” pelas pessoas próximas, já que viveram muito e por se afirmar que se deve cuidar principalmente dos mais jovens que têm a vida pela frente.

Um dos grandes problemas que se observa nos dias de hoje é a diminuição do número de cuidadores familiares. O prolongamento da vida, principalmente com doenças altamente incapacitantes como é o caso do câncer, pode provocar processos alternativos de preparação para morrer, e melhoras com o retorno para o domicílio. Um outro problema a se considerar é que os cuidados especializados para idosos doentes, com problemas mentais é muito caro. Nestes casos pode-se falar em “eutanásia econômica”, ou seja, só é cuidado bem aquele que tem possibilidades financeiras. Hospitais não têm como objetivo principal os cuidados a pacientes com doenças crônicas, e o câncer, em muitos casos, está se tornando doença crônica. Por outro lado, devemos lembrar que para os idosos a hospitalização é mais uma separação de ambientes familiares, um local estranho, que desrespeita hábitos tão arraigados. É também no hospital, e mais particularmente nas UTIs, que podem ocorrer processos distanásicos, por exemplo, em tratamentos, que mais prolongam o sofrimento do que proporcionam melhoras ou qualidade de vida.

Os familiares também sofrem uma grande sobrecarga física e psíquica, principalmente o cuidador principal. Muitos deixam de viver a própria vida, sentem-se esgotados e impotentes.


PROPOSTAS

Buscar um incremento de programas de cuidados paliativos, tanto institucionais quanto no domicílio, envolvendo uma preocupação com o alívio de sintomas incapacitantes e com o favorecimento da qualidade de vida. É muito importante diferenciar sintomas para trata-los de forma adequada. Uma dos problemas mais freqüentes é conseguir fazer o diagnóstico diferencial entre fadiga e depressão, pois cada um destes sintomas necessita de cuidados diferentes.

É fundamental cuidar da dor total, proporcionando alívio da dor, fadiga, anorexia, isolamento social, atendimento espiritual, principalmente levando em conta as necessidades e desejos da pessoa. É fundamental abrir espaços para que os velhos possam contar as suas histórias, aspecto muito importante para aqueles que adoeceram. Torna-se essencial de resgatar a sua autonomia, que sempre exerceram em suas vidas.

O luto antecipatório deve ser trabalhado, com o paciente, envolvendo a perda de si, da saúde, da vida e a separação das pessoas queridas. O luto antecipatório para os familiares envolve as perdas relacionadas ao adoecimento, a perspectiva da morte e a sensação de sobrecarga dos cuidadores. A eles deve se dar espaço de cuidados institucionais ou em domicílio, já que muitas vezes o cuidado totalmente voltado para os paciente, não lhes concede possibilidade de serem acompanhados.

Os limites acerca de tratamentos devem ser informados e esclarecidos para evitar os processos distanásicos, que podem aumentar o grau de sofrimento. Cabe ressaltar que há limite para os tratamentos, mas não há limites para os cuidados em todas as esferas.

Não há solução para a morte, mas se pode ajudar a morrer bem, com dignidade, facilitando os processos de finalização.

É tarefa fundamental formar profissionais e preparar familiares para cuidar de pacientes gravemente enfermos com múltiplos sintomas em domicílio e nas instituições. Uma proposta é incluir nos cursos da área de saúde e educação, o tema da velhice, lembrando-se de sensibilizar os profissionais em formação para o seu próprio processo de envelhecimento, que certamente ocorrerá um dia, se não morrerem antes.

SOBREVIVENTES DO CÂNCER

Vicente A. de Carvalho


Síndrome de Damocles é um nome que tem sua origem num relato de Cícero que fala de um episódio ocorrido na corte de Dionísio I, tirano de Siracusa (432-367 a.C.) que inquirido pelo cortesão Damocles a respeito da razão de sua felicidade convidou-o para um banquete em sua corte. A certa altura Damocles que testemunhava a alegria do tirano percebeu que sobre o lugar de honra no qual se sentava havia uma espada desembainhada pendurada apenas por um fio da crina de um cavalo.



Este episódio serve como clara alegoria do que se passa na vida daquele que tem o diagnóstico de câncer. No momento do diagnóstico revela-se de uma forma contundente um aspecto da realidade de nossas vidas que de alguma forma sempre esteve presente, porém não claramente perceptível, ou seja, a incerteza e os riscos do viver.



Dessa forma a vida não mais será a mesma. Novas questões passam a se impor ao cotidiano do indivíduo.



A primeira destas questões se refere ao estigma que envolve o câncer. Ao câncer ficou atribuída a idéia de morte inexorável e, mais ainda, morte através de grande sofrimento. Sofrimento trazido basicamente pela deterioração do corpo e pela dor. Mais recentemente acresceu-se a idéia de que o sofrimento também causado pelos tratamentos, quer cirúrgicos, quando mutiladores, quer pela quimioterapia ou radioterapia, pelos seus efeitos colaterais.



No entanto, além destes elementos estigmatizantes , outros ainda permeiam o imaginário. São devidos a própria história do câncer e às tentativas que o Homem tem feito para explicar sua origem.



Houve tempo em que ao câncer era atribuída, como origem, a má higiene. Houve autor que chegou a afirmar que " a má higiene é responsável pela quinta parte dos casos de câncer" ( Silveira, 1927). Na mesma época atribuía-se também a pobreza um papel importante na etiologia desta doença. Assim ficou estabelecida a associação pobreza e falta de higiene. A idéia de que a doença era contagiosa também se estabeleceu e mesmo hoje podemos encontrar casos em que esta idéia permanece.



Ao trabalharmos aspectos emocionais dos pacientes com câncer deveremos estar atentos a esses aspectos que poderão estar presentes e influenciar alguns comportamentos.



No que diz respeito ainda aos possíveis estigmas ligados a doença há que considerar que, a partir de meados do século XX, passou-se também a atribuir aos paciente com câncer responsabilidade em relação ao adoecimento. Hoje em dia, com uma certa freqüência, vemos pacientes ou mesmo profissionais de saúde, afirmando que estados emocionais foram responsáveis pelo adoecimento. Afirmações como "Eu fiz o meu câncer" ou "Você fez o seu câncer" vez ou outra são ouvidas. Embora saibamos que estados crônicos de depressão ou prolongadas situações de estresse podem contribuir para o adoecimento, não se pode afirmar que estes estados possam ser elementos que diretamente causem a doença. Mas, por esse caminho, sempre pode estar presente o sentimento de culpa.



Os tratamentos atuais são também elementos que podem pesar sobre o paciente. As cirurgias, sobretudo quando mutiladoras, podem criar uma condição adversa para a boa qualidade de vida do sobrevivente. Mesmo aquelas cirurgias em que as seqüelas não são visíveis, podem trazer algum comprometimento, quer funcional, quer emocional . Refiro-me àquelas que trazem alterações de ordem hormonal ou alguma alteração funcional. Assim, seqüelas como, impotência sexual, ejaculação retrógrada ou linfedema podem estar presentes e precisam ser consideradas para tratamento adequado



O tratamento quimioterápico pode também acarretar efeitos colaterais a longo prazo que podem influir na qualidade de vida. Assim, podem estar presentes quadros de insuficiência renal, comprometimento cardíaco, problemas neurológicos, com comprometimento cognitivo e de memória e ainda esterilidade.



A esterilidade pode ser um problema importante quando se trata de pacientes jovens. Este problema pode ser contornado, geralmente em grandes centros e com pacientes bem informados e com bom nível sócio-econômico, através do armazenamento de células reprodutoras para inseminação posterior.



A radioterapia pode também causar problemas que podem surgir a longo prazo, desde o aparecimento de novos tumores ao surgimento de demência quando de tratamento de tumores cerebrais.



Se considerarmos especificamente a criança com câncer as seqüelas da quimioterapia poderão se apresentar de forma aguda, média ou a longo prazo.



As agudas poderão ser insuficiência cardíaca, alopésia, mucosite grave e aplasia de medula. As médias poderão ser infecções e insuficiência cardíaca, pulmonar e renal e as de longo prazo poderão ser de ordem endocrinológica, como infertilidade, insuficiência de Hormônio do Crescimento (GH) e hipotireoidismo. Podem também estar presentes deficiências do crescimento e desenvolvimento, neoplasias secundárias, insuficiência cardíaca, alterações ósseas, osteoporose, necrose asséptica de alguns óssos, (geralmente a estrutura comprometida é a cabeça do fêmur) e leucoencefalopatia.



Em crianças a radioterapia pode levar a alterações do desenvolvimento de todos os tecidos irradiados, órgãos em geral, ossos e tecidos moles. Dependendo da estrutura comprometida e da idade da criança poderá então surgir algum comprometimento do crescimento. Assim poderão estar presentes alterações da colona vertebral, levando a sifoescoliose. Em meninas poderão surgir alterações do desenvolvimento de mamas. A função renal do rim remanescente também poderá estar comprometida após nefréctomia (retirada de um dos rins).



A cirurgia em criança poderá também trazer várias seqüelas. A amputação de um membro ou o comprometimento da função do mesmo, a perda da visão de um dos olhos ou de ambos em caso de retinoblastoma ou outras deformidades.



Do ponto de vista psicológico dados mostram que crianças sobreviventes de câncer têm maior susceptibilidade a transtornos de ajustamento psicológico quando comparadas com outras crianças portadoras de doenças crônicas mas que não ameaçam a vida.



Há alguns elementos preditivos de Transtorno de Ajustamento psicológico entre os sobreviventes de câncer na infância. Os tratamentos longos com a presença de muitos efeitos colaterais permanentes, a idade ao diagnóstico, ou seja crianças não tão pequenas e que já podem acompanhar um pouco o que se passa com elas podem estar entre as de maior risco. A recorrência que ocorre pouco tempo depois do diagnóstico inicial é também um fator de preditivo de risco de Transtorno de Ajustamento.



Crianças com Transtorno de Ajustamento diferem das que não apresentam este quadro em diversas variáveis como as que dizem respeito à personalidade e humor.



Há fortes evidências que aquelas que têm preocupações persistentes em relação ao desenvolvimento da doença têm maior risco de apresentarem Transtorno da Ajustamento a longo prazo.



As crianças com Transtorno de Ajustamento apresentam geralmente habilidade verbal algo inferior ou mais variável do que as bem ajustadas.



Crianças que não usam a negação como mecanismo de defesa, que perdem a confiança nos bons resultados do tratamento, que têm recorrência da doença e que são freqüentemente lembradas da ameaça do câncer apresentam maior risco de terem Transtorno do Ajustamento.



Há trabalhos que sugerem que existe uma relação entre ajustamento psicológico e uma gama de deficiências físicas na infância. Assim sendo, crianças com deficiências físicas quando comparadas com aquelas sadias mostram um aumento significativo de desajustamentos psicológicos. Parece que o grau de deficiência funcional decorrente da limitação de atividades normais tem efeito na formação de sintomas comportamentais.



Uma outra questão relevante já discutida em outra ocasião (Boletim n.º 2) é a da depressão em pacientes de câncer. Esta é uma patologia bastante freqüente e que causa grande sofrimento e limitação e que muitas vezes não é adequadamente considerada ou mesmo vista como patologia que exige intervenção adequada.



A depressão pode já estar presente antes mesmo do aparecimento do câncer, bem como pode surgir como conseqüência deste de maneira que o profissional de saúde que esteja cuidando do paciente de câncer tem que ter este dado em mente para os devidos cuidados.



A medida que aumenta o número de pacientes sobreviventes do câncer, uma nova área de atuação se impõe. Trate-se de definir quem deve se responsabilizar pelo acompanhamento do paciente após alta do oncologista. Há quem proponha a criação de centros de sobreviventes. Instituições como o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York e alguns outros centros americanos têm desenvolvido este trabalho. Aqui entre nós a Clínica Boldrini de Campinas, São Paulo também vem já há algum tempo desenvolvendo este tipo de trabalho.



Estes centros propõe-se ao monitoramento da recorrência, monitoramento dos efeitos tardios, ao aconselhamento genético, ao acompanhamento da infertilidade, ao acompanhamento psicológico e ao acompanhamento social através de seus serviços sociais.



Alguns pontos críticos têm sido assinalados como o do alto custo destes centros, levando ao acesso restrito a alguns grupos sociais e geralmente em grandes centros urbanos. Especificamente em relação ao paciente adulto temos ainda um corpo de conhecimentos pouco estruturado, o que já não acontece com o paciente pediátrico.



De qualquer maneira, como o câncer passou a ser uma doença crônica que ameaça a vida deverá ser abordado do ponto de vista do viver com câncer entendendo-se essa experiência como uma transição psicossocial. Assim, assuntos como mudanças de aparência decorrentes dos tratamentos, adaptação às rotinas domésticas, de trabalho e escolares, as pressões sociais específicas sobre os adolescentes com câncer, o convívio com a incerteza após o diagnóstico passam a estar no foco dos cuidados ao paciente e suas famílias





Bibliografia:



Koocher, GP et al. The Damocles Syndrome, Psychosocial Consequences of Surviving Childhood Cancer, McGraw-Hill Book Company, New York, 1981)



Silveira, 1927, citado por Sant'Anna, D.B, A mulher e o Câncer na História, in A Mulher e o Câncer, Gimenes. M.G.G. (org.) Editoria Psy, são Paulo, 1987. p 45).

Simpósio dos 10 anos da SBPO

Em 30 de abril e 1O. de maio de 2004 ocorreu o Simpósio dos 10 anos da SBPO. A diretoria propôs uma comemoração que envolveu, tanto um caráter científico, quanto festivo.

Dia 30 iniciamos as atividades, tendo Paulo Cyrillo como nosso mestre de cerimônias, com a apresentação pela Secretária Geral da SBPO, Maria Helena Pereira Franco, dos principais acontecimentos que marcaram os 10 anos da SBPO, envolvendo os Congressos Brasileiros de Psico-Oncologia, os cursos de especialização na área, as atividades científicas das Regionais, os estatutos da Sociedade, entre outras atividades relevantes. Elisa Perina, na qualidade de presidente do Comitê de Psico-Oncologia Pediátrica da SBPO, e que sempre foi muito ativa, relatou as principais atividades didáticas e de pesquisa daquele comitê, representado os demais comitês. Após estas apresentações, Vicente de Carvalho fez uma conferência “Os sobreviventes do câncer”, em que apontou a temática da sobrevivência de pacientes com câncer, graças à detecção precoce e o desenvolvimento de tratamentos, entretanto muitos deles apresentando seqüelas que merecem estudo e cuidados dos profissionais da área.

Foram homenageados os ex-Presidentes da SBPO, desde a primeira gestão, recebendo uma placa com os agradecimentos da atual diretoria: Maria Teresa Barreto Prudente (Sergipe), Paulo Cyrillo (S. Paulo), Maria da Glória Gimenes (S. Paulo), Ana Maria Caran de Miranda (Goiás). Foram homenageados também Terezinha Penna (Rio de Janeiro) uma das primeiras profissionais envolvidas com a Psico-Oncologia em nosso país e Luiz Pedro Pizzatto (Paraná), que foi o Presidente do 1O. Encontro de Psico-Oncologia no Brasil.

Dia 1O. de maio, houve uma intensa programação científica com quatro mesas-redondas, envolvendo temas que gostaríamos de abrir para debate, mas que certamente não esgotam inúmeras outras possibilidades que poderão ser considerados em outros eventos. Foram abordados os seguintes temas:

1. Cancerofobia – Maria Margarida de Carvalho (expositora) – Regina Liberatto e Luiz Paulo Cotrim Amorim debatedores, sob coordenação de Rita de Cássia Macieira.

2. Prevenção em Psico-Oncologia – José Gomes Temporão (expositor – Presidente do Inca) – Nise Yamaguchi e Maria da Glória Gimenes (debatedores), sob a coordenação de Vicente de Carvalho

3. Câncer e envelhecimento – Maria da José Alves (expositor) – Luís Saporetti e Maria Julia Kovács (debatedores), sob a coordenação de Maria Teresa Veit.

4. Mídia e câncer – André Perdicaris (expositor) – Maíra Rodrigues Gomes (debatedora), sob coordenação de Maria Helena Pereira Franco)

Optamos pela exposição do tema e os debatedores procuravam ressaltar, ampliar, discutir ou dialogar com o expositor. Depois disto era aberto o debate com público. Este teve a possibilidade de participar, fazendo perguntas no auditório ou nos intervalos. Apesar do pouco tempo para a discussão, a avaliação do evento, tanto por parte dos organizadores, quanto do público foi muito favorável. Pedimos aos expositores e debatedores que enviassem as suas falas para este Boletim, e à medida que foram chegando, vamos disponibiliza-las para consulta dos interessados neste veículo.

Do ponto de vista festivo, procuramos comemorar os 10 anos numa confraternização entre os organizadores, profissionais e alunos presentes. Tivemos coffee-breaks nos dois dias, com comidinhas muito saborosas (infelizmente nada lights) e no dia 1O. o dia do aniversário, após o término das mesas, tivemos um sarau musical com André Growald (psicólogo) no teclado, Flavio Dall’Acqua e Otoniel Moretti Caprara no violão e voz . Assim cantamos e comemoramos com um cocktail e com um bolo cuja cobertura tinha o logo da SBPO e uma vela que simbolizou estes primeiros 10 anos de vida. Todos nós desejamos que várias destas festividades possam marcar e confirmar o desenvolvimento da Psico-Oncologia em nosso país, tendo a SBPO como seu veículo facilitador.

Indicação do Dr. Vicente Augusto de Carvalho para o Board of Directors da IPOS (International Pscho-Oncology Society)

Vicente Carvalho, presidente da SBPO, foi convidado a integrar o Board of Directors da International Pscho-Oncology Society (IPOS). Trata-se sem dúvida de uma grande honra para o Dr. Vicente e para a SBPO, que agora passa a ter uma representação internacional. Dr. Vicente já havia sido convidado para representar a América Latina no Congresso Internacional de Psico-Oncologia a ser realizado em Copenhagen em Agosto de 2004. Foi montado um grupo de trabalho coordenado por Maria Teresa Veit para coletar as informações necessárias para que ele possa apresentar estes dados no Congresso,

Está agendada uma Teleconferência com todos os diretores do Board da IPOS, entretanto ainda não sabemos qual a temática a ser abordada.

Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia – Vicente Augusto de Carvalho convidado como conferencista do Congresso da IPOS – 2004 – em Copenhagen - Dinamarca.





Dr. Vicente Augusto de Carvalho, Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia foi convidado pelo Dr. Christoffer Johansen, Presidente do VII Congresso da Internacional Psycho-Oncology Society (IPOS) para participar de uma Sessão Plenária intitulada “ Psico-Oncologia nos países em desenvolvimento”. Participarão também desta sessão: Professor Santosk Chaturdevi (Índia), Dr. Martin Chansen (África do Sul) e Professor Zhang Zong Wei (China). Dr. Vicente irá representando a América Latina e deverá apresentar os dados sobre o desenvolvimento da Psico-Oncologia nestes países. O 7o. Congresso da IPOS realizar-se-á de 25-28 de agosto de 2004 em Copenhagen, Dinamarca.



O tema principal deste congresso é “Compreendendo diversidades – desenvolvimento de estratégias para a Oncologia Psicossocial”, refletindo a necessidade de diretrizes clínicas para o cuidado psicossocial de pacientes com câncer e seus familiares, com enfoque multidisciplinar, numa perspectiva da diversidade cultural mundial. Este conhecimento das modalidades de cuidados em Psico-Oncologia em diferentes países deve trazer uma maior integração destas diversas perspectivas. Por isto o convite feito ao Dr. Vicente é uma forma de tornarmos conhecidas no mundo modalidades de cuidados, pesquisa e serviços de Psico-Oncologia da América Latina, e também a possibilidade de conhecermos o que é feito em outros países.



O programa científico do congresso vai incluir todas as áreas da Oncologia Psicossocial e durante o evento haverá sessões educacionais, e um curso pré-congresso em metodologia de pesquisa e prática clínica nesta área. O Congresso da IPOS 2004 será organizado em conjunto com a EFPOS (Federação Européia de Sociedades de Psico-Oncologia.



Para os que quiserem participar deste Congresso podem contatar Dr. Christoffer Johansen – Danish Cancer Society, Institute of Cancer Epidemiology, Strandboulevarden 49, DK 2100 – Copenhagen: Fax: +45 3525 7731 – e-mail: ipos2004@cancer.dk.



Além do congresso Dr. Johansen propõe que se conheça a velha capital dinamarquesa, com segurança e sem violência (isto para nós é realmente muito importante), e em agosto a temperatura é de aproximadamente 20 graus.

Desenvolvimentos em Psico-Oncologia Pediátrica

Elizabeth Ranier Martins do Valle

bethvale@eerp.usp.br

Presidente do Comitê de Psico-Oncologia Pediátrica

Desde o I Congresso Brasileiro de Psico - Oncologia que aconteceu em São Paulo, aos 27/04/1994, eu, de Ribeirão Preto,já desenvolvendo um trabalho de assistência e pesquisa em Psicologia, voltado ao câncer infantil, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto -USP(HCFMRP-USP) e Elisa Maria Perina, do Centro Infantil de Investigações Hematológicas "Dr.Domingos A. Boldrini", de Campinas, pioneira no atendimento psicológico à criança com câncer e a seus familiares no Brasil, almejávamos instituir um espaço próprio para a Psico-Oncologia Pediátrica. Participantes que éramos, desde então, da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, buscamos, por várias vezes, levantar situações nos centros de tratamento de câncer infantil no Brasil e organizar dados que pudéssemos obter, a fim de configurar como vinha sendo desenvolvido o trabalho psicológico na área.

Há 10 anos, muito menos trabalhadores da área psi estavam engajados na Oncologia Pediátrica e, realmente, tivemos dificuldades de levar adiante esse trabalho, embora não tivéssemos, jamais, desistido e, de algum modo, sempre conseguindo avançar.

Um marco importante foi quando conseguimos instituir o Comitê de Pediatria e "eleger" um representante para as várias regiões brasileiras, acompanhando as Diretorias Regionais da SBPO. Assim, a cada congresso da SBPO, essa idéia foi fortalecendo.

Elisa Maria Perina foi a primeira presidente desse Comitê Nacional de Psico-Oncologia Pediátrica, cabendo-me, agora, substituÍ-la e dar prosseguimento aos nossos ideais de realizar um trabalho sempre compartilhado.

Assim, gostaria de expor algumas atividades que esperamos poder desenvolver nos próximos dois anos:



- de início, divulgaremos uma relação de referências bibliográficas brasileiras em Psico-Oncologia Pediátrica, de modo a informar o leitor interessado sobre o que vem sendo investigado na área: como a família recebe e lida com o diagnóstico do câncer em um filho, os modos de a família e a criança enfrentarem o tratamento e a recidiva, quando esta acontece...o medo da morte, a vivÊncia do luto pelas mães, a alegria da cura , a qualidade de vida nos diferentes momentos do tratamento... o irmão da criança doente... a questão escolar do pequeno paciente, os seus modos de se expressar através de histórias e desenhos, dentre outros temas. Os profissionais de saúde também não serão esquecidos: enfermeiros e médicos, como vivenciam o cuidar da criança com câncer e de sua família?



- há um sonho, no que tange à escolaridade da criança com câncer, em dar as condições necessárias para que essa criança não interrompa sua vida escolar quando acometida por um câncer. Sabemos como a escola significa a vida infantil. Afastar-se dela, pelo adoecimento e por suas conseqüências, é parar a vida. Dois trabalhos, já conhecidos:

1- o Programa de Reinserção Escolar da Criança com Câncer, desenvolvido com sucesso pela psicóloga Gisele Machado da Silva com colaboração da assistente social Tânia M.Sandrin em Ribeirão Preto e região(vinculado ao GACC- Grupo de Apoio à Criança com Câncer/HCFMRP-USP; 2 - o trabalho de capacitação pedagógica para professores de primeiro grau(um programa de treinamento), voltado para o câncer na criança, que já vem sendo desenvolvido pela psicóloga Nely A.Guernelli Nucci( em Recife já ocorreu) serão divulgados e poderão ser oferecidos em outros centros que se interessarem.



- entrar em contato com os serviços/pesquisadores para saber como estão trabalhando/ou levantar um tema comum para um trabalho conjunto. São aceitas sugestões.



- Continuar, em conjunto com Luciana Pagano Castilho Françoso, a tradução das guidelines da SIOP - Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica. Trata-se de orientações psicossociais, emanadas pelo comitê de trabalho coordenado por Giuseppe Masera e John Spinetta, que vem se reunindo desde 1991, em várias partes do mundo, nas Reuniões Anuais da SIOP. Como resultado há orientações sobre aspectos importantes na área. Até o momento, foram traduzidas e publicadas as recomendações relativas aos seguintes temas, nos anos 90: Orientações sobre escola e educação; Orientações sobre assistência a crianças curadas de câncer; Orientações sobre a comunicação do diagnóstico; Orientações sobre prevenção de burn-out em profissionais de saúde que assistem crianças com câncer; Orientações para a assistência aos irmãos de crianças com câncer.



Já recebemos novas guidelines referentes a outras temáticas e, em breve , estaremos traduzindo e publicando em livreto e no Boletim da SBPO.


Publicações brasileiras relacionadas a aspectos psicossociais do câncer infantil

Gisele Machado da Silva, Shirley Santos Teles,

Elizabeth Ranier Martins do Valle

Período: 1980 a 1997

Artigos e Anais

ANDERS, J.C. Estar-com os pais em seu vivenciar a doença do filho - uma perspectiva fenomenológica. Revista brasileira de Enfermagem, 44 ( 2/3): 80-97, 1991.

ANTONELLI, C.B.G. Possibilidades atuais de cura da criança com câncer. Rev Paulista de Pediatria, 6 (22): 102-104, 1998.

ARAÚJO , T.C.C.F.; LINS, M.P.B.E.; ABREU, M.M.R.; RAMOS, V.S.C.;

ALMEIDA, V.M.B. Manual de preparação psicológica da criança para o tratamento oncológico. Anais do III Encontro e I Congresso Brasileiro de Psico- oncologia, p. 153-155, 1994.

BARBOSA, J.A.; FERNANDES, M.Z.; SERAFI, E.S. Atuação do Psicólogo no Centro de Oncologia Infantil. Jornal de Pediatria, 67 ( 9/ 10): 344- 347,1991.

BESSA, L.C. De Lázzari. Famílias de crianças com câncer. Pediatria Atual, 10 (1/2): 11-13, 1997.

BOEMER, M.R.; VALLE, E.R.M. O significado de cuidar de crianças com câncer. Revista Brasileira de Enfermagem, 41 (1): 56-63, 1988.

CAMARGO, J.F.; YAZBEK, V.C.; OLIVEIRA FILHA, A.N. de. Vivências psicopedagógicas com a criança portadora de câncer e "sala de espera" comocontexto de reflexão familiar. Anais do III Encontro e I Congresso Brasileiro de Psico- oncologia, p. 23-27, 1994.

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A SBPO agradece a AstraZeneca do Brasil e a Fundação Oncocentro de São Paulo pela inestimável colaboração com o Simpósio 10 anos - Construindo História.




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