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Ano I - Edição 6 Novembro Dezembro 2004



PALAVRAS DO PRESIDENTE

Vicente Augusto de Carvalho

Estamos terminando mais um ano e fim de ano geralmente é tempo de avaliações e novos projetos.



A SBPO tem claramente um saldo a seu favor quando pensamos nas atividades desenvolvidas durante o ano de 2004.



Conseguimos projetar nossa Sociedade em âmbito nacional e internacional. Vale lembrar que em âmbito nacional conseguimos um assento no GAT (Grupo de Assessoria Técnica do CONSINCA (Conselho Consultivo do INCA) e em âmbito internacional conseguimos um assento no Board of Directors da IPOS (Intenational Psycho-Oncology Society).



A SBPO participou de vários congressos nacionais este ano através de vários de seus diretores como também de dois congressos internacionais: o primeiro deles foi o “Primeiro Congresso Internacional de Psico-Oncologia e Cuidados Paliativos”, acontecido em janeiro na cidade de Santiago, no Chile e o segundo foi o “VII Congresso Internacional da IPOS”, acontecido em agosto na cidade de Copenhagen, Dinamarca. Em ambos congressos vários contatos foram estabelecidos, contatos estes importantes para o desenvolvimento da Psico-Oncologia em nível nacional e continental.



Em nível continental contatos estão sendo estabelecidos para a criação de uma Confederação Sul Americana de Psico-Oncologia, o que poderá agregar colegas de vários países sul americanos e facilitar o intercâmbio entre as várias sociedades de nosso continente. Alguns países da América do Sul não contam ainda com uma organização na área e nos parece importante que este movimento se espraie o mais possível, contribuindo, com seus conhecimentos, para desenvolver práticas que resultem em melhor qualidade de vida a pacientes de câncer, suas famílias e profissionais envolvidos.



Este ano a SBPO continuou se empenhando na formação de profissionais na área, além de aperfeiçoar a estrutura de cursos de formação e aprimoramento, atendendo a uma demanda que foi se delineando a partir da experiência com os cursos em andamento. Hoje contamos com uma regulamentação adequada que facilitará o andamento destes cursos.



Várias das Diretorias Regionais da SBPO têm se mostrado bastante ativas. Assim a Regional Sudeste indicou somo sua representante Dra. Márcia Stephan, do Rio de Janeiro, Nesta cidade a SBPO iniciou seu terceiro curso de Especialização em Psico-Oncologia, além de ter patrocinado um curso de fim de semana sobre Psicopatologia e Farmacologia ligadas ao câncer. Em São Paulo foi realizado durante o primeiro fim se semana de maio um evento comemorativo do décimo aniversário de fundação da SBPO com várias mesas redondas e algumas conferências, uma delas proferida pelo Dr. José Gomes Temporão, Presidente do Instituto Nacional do Câncer (INCa). Contou ainda com o apoio da Fundação Oncocentro de São Paulo e do Laboratório Astra-Zeneca.



Em Vitória, Espirito Santo, a Presidente da Regional Sudeste, Dra. Jurama Ribeiro de Oliveira organizou o III Simpósio Espirito Santense de Psico Oncologia em parceria com a Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), evento que contou com 440 participantes e que foi de fato um sucesso, abrindo a possibilidade de outras atividades conjuntas com a SBC .



Em novembro último a SBPO a participou de uma aula sobre o “Papel da Psico-Oncologia nos Programas de Prevenção do Câncer. Esta aula deu-se através da Conexão Médica, em seu programa de educação continuada, patrocinada pela Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC),. Estiveram presentes pela SBPO Vicente A. de Carvalho, Maria Helena Pereira Franco, Maria Júlia Kovács, Maria da Glória Gimenes, Maria Teresa Veit e Ana Maria Caran Miranda, esta última participando de Goiânia. Pela SBC estiveram presentes o Dr. André Perdicaris, vice-presidente e Ricardo Antunes, Diretor para Prevenção de Câncer.



A Regional Nordeste tem também desenvolvido diversas atividades importantes. Sua Presidente, Arli Pedrosa, indicou representantes em 3 estados daquela região. São eles: Anice Holanda Nunes Maia, de Fortaleza, Ceará; Maria Jaqueline Gomes, de Natal, Rio Grande do Norte e Sandramaria Gonçalves Gomes, de Maceió, Alagoas. Esta ação é decorrente da orientação desta diretoria e tem o objetivo de espalhar as atividades da SBPO por todo o território nacional, evitando centralizações indesejáveis para o desenvolvimento de nossa área de atuação.



A Regional Nordeste estabeleceu também uma parceria com o Grupo de Apoio e Auto-Ajuda a Pacientes de Câncer (GAAPAC), da cidade de Recife. Pernambuco.



Realizou os cursos: A Criança com Câncer e a Escola” em parceria com o Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC). ; “Lidando com Perdas e “Atuação do Psicólogo e Oncologia Pediátrica”.



Através de parcerias a SBPO-NE contribuiu para a publicação dos livros: “Quando seu colega de Escola tem Câncer”, de Arli Melo Pedrosa e “Entendendo e Participando do Tratamento do Câncer Infantil” da mesma autora.



A Regional Nordeste da SBPO participou ainda de alguns eventos como o VII Congresso Paraguaio de Medicina Interna, II Congresso Paraguaio de Hematologia, Curso Pré-Congresso de Hemato-Oncologia Pediátrica apresentando os temas: “Comunicação do Diagnóstico”, “Organização do Grupo de Trabalho Voluntário” e “Capacitação de Recursos, Apresentação da Instituição. Esteve presente ainda no I Forum Brasileiro de Oncologia e II Congresso Paraibano de Oncologia onde apresentou dois trabalhos. A SBPO-NE esteve representada na “International Society of Paediatric Oncology, SIOP 34º Congress Meeting, tendo apresentado o trabalho “Evaluation of a diagnosis in pediatric oncology services in Brazil”, evento este acontecido em Oslo, Noruega em setembro último. Por fim, esteve representada no IX Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica, acontecido em São Paulo, em novembro deste ano. Nesta ocasião apresentou quatro trabalhos sendo que dois deles receberam Menção Honrosa.



A SBPO- Regional Sul, em parceria com a PUC do Rio Grande do Sul está terminando a Segunda edição do Curso de Especialização à Distância devendo iniciar a terceira edição do curso no início de 2005. Como decorrência do Curso de Especialização e também fruto de parceria com a Faculdade de Psicologia da PUC, foi editado o livro “Psico-Oncologia: Interdisciplinaridade, Edipuc, 2004.



A Regional Centro-Oeste, através de ações de sua presidente Maria Teresa Rebelo têm se empenhado em sua estruturação, sendo que em breve teremos notícias de ações concretas.



Ainda, como nova atividade desenvolvida pela Diretoria Nacional, está o presente Boletim, que tem sido publicado regularmente. Este é mais um meio de comunicação e tem sido distribuído eletronicamente para cerca de 2000 leitores.



Como planos de futuro, continuamos trabalhando para ampliação de comunicação entre os membros da Sociedade, no que, diga-se de passagem, nosso “site” tem sido de grande importância. Desde abril deste ano até esta data já recebemos quase 30.000 (trinta mil) consultas. Atualmente o “site” é acessado não apenas por profissionais em busca de informações sobre nossa área, mas também pelo público leigo em busca de indicações de terapeutas que possam dar suporte emocional a pacientes de câncer.



De qualquer forma, achamos que na área de comunicação muito ainda há que ser feito até criarmos um hábito de nos comunicarmos mais freqüentemente, formando uma rede significativa de troca de informações.



Iniciamos este mês passado as ações necessárias para a organização de nosso IX Congresso Brasileiro a ser realizado em 2006. Estamos definindo parcerias e o local definitivo de realização do Congresso. Passos também já foram dados para que aproveitemos esta oportunidade para que esse congresso seja também um Congresso Latino-americano de Psico-Oncologia, caminhando para a ampliação do movimento da Psico-Oncologia por estes outros territórios, além de criar condições para trocas de informações e experiências, continuando assim o trabalho iniciado por nossos colegas chilenos com a realização do congresso acima citado.



Esperamos que 2005 seja um ano bastante profícuo para todos e que possamos estar juntos em muitas atividades, num processo de maior entrosamento entre todos.

A psico-oncologia num hospital na região do Québec, Canadá1



Dóris Lieth Peçanha2



Entendo que não se pode falar de qualquer fenômeno sem contextualizá-lo. O que pretendo é relatar, brevemente, uma vivência particular num hospital oncológico no Canadá, durante meu pós-doutoramento em psicologia. Importa aqui, numa leitura sistêmica, situar a experiência alvo deste relato nos múltiplos sistemas que a envolvem, que a limitam e que projetam sua essência humana. O tempo é novembro de 2003, cidade de Trois-Rivières, Québec, Canadá. Frio e vento prenunciavam a neve que não tardou a chegar. Na ordem do dia uma efervescência política: inúmeras manifestações de sindicatos e profissionais da saúde contra a privatização dos serviços e a ameaça de perda de direitos trabalhistas. Enfim, intensa movimentação contra as reformas que, em suas características, ameaçavam seriamente a qualidade dos serviços de saúde oferecidos à população. De outro lado, campanha da mídia no sentido de jogar essa clientela contra os profissionais e instituições públicas de saúde. Acompanhei ações governamentais que visavam extinguir serviços públicos de saúde, reduzir verbas destinadas aos atendimentos de “primeira linha” (prevenção) e aglutinar centros de atenção primária, bem como observei tentativas de deslocar o eixo da prevenção para o tratamento e a medicalização. Fenômeno semelhante venho testemunhando na França, particularmente em setembro de 2004, na ocasião de intercâmbio científico com o Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (INSERM), com o Institut de Psychologie, Université René Descartes (Sorbonne) e com diversas instituições de saúde. Mas essa é outra história.

Provavelmente por causa da derrocada da União Soviética, hoje assistimos a uma nova ofensiva do chamado capitalismo selvagem que se consubstancia, por exemplo, num processo de depreciação da qualidade de atendimento à saúde em alguns desses países capitalistas, como o Canadá, que é alvo deste relato. Quem assistiu ao filme canadense “Invasões Bárbaras” deve concordar com tal assertiva.

Apesar desse quadro de ataques a um sistema de saúde público considerado um dos melhores no mundo ocidental, tive a oportunidade de constatar, no Québec, características muito humanas de atendimento aos pacientes oncológicos no Centro Hospitalar Regional de Trois-Rivières (CHRTR). A manutenção de tal humanismo me pareceu ligada à filosofia de abordagem global do paciente psicológico e à excelente formação acadêmica dos profissionais no âmbito da psicologia e da psico-educação (curso incipiente no Brasil).

O programa de cancerologia no Centro Hospitalar Regional de Trois-Rivières (CHRTR), Québec, Canadá é um projeto concebido por uma equipe multidisciplinar, com características inovadoras e democráticas. A primeira particularidade é que esse Centro dispõe de tecnologia de ponta, considerada uma das mais avançadas no âmbito de rádio-oncologia. Físicos médicos participam de todas as etapas, desde a compra de aparelhos, a construção de instalações adequadas para abrigá-las, até o desenvolvimento de técnicas que objetivam minimizar os danos do tratamento oncológico e maximizar o conforto do paciente.

A segunda particularidade do Centro é que ele se apóia num programa em cancerologia que, além de cobrir o aspecto do tratamento médico, oferece um suporte psicossocial adaptado às necessidades das pessoas acometidas de câncer. Consultas e intervenções são realizadas pelos assistentes sociais, mas quero destacar aqui o trabalho dos psicólogos em oncologia (o termo psico-oncologia pouco figura naquele espaço). Ginette Munger, psicóloga no CHRTR, partilhou comigo sua experiência no atendimento a pessoas com câncer. Em cada caso que ela relatava eu podia constatar um olhar atento, pronto a re-significar o mais singelo sinal emitido por seu paciente, desde que esse aceitasse tal empreitada.

Marcou-me a maneira singular como Madame Munger acolhia cada pessoa, a ausência de qualquer teorização em sua fala, nenhuma generalização ou encaixe da pessoa com câncer neste ou naquele paradigma. Dessa forma, embarquei com ela numa viagem única em que os tripulantes sucediam-se. Alguns deixavam a porta aberta durante as consultas. A fase terminal da doença indicava que não queriam fechar os laços que os prendiam à existência terrena. Outros sentavam-se com a coluna bem ereta e assim esperavam a morte, sem curvar-se. E havia ainda aqueles que ocupavam todo o tempo da consulta observando os ponteiros do relógio, como se a força de olhá-los pudesse imobilizar o tempo que escoava. Nesse contexto a viagem descrita era marcada pelo encontro de dois seres : terapeuta e paciente em meio aos desencontros de sonhos e desejos deste último.

No início da jornada do paciente tem-se já uma grande tempestade – o diagnóstico. Que direção tomar, para onde mares e ventos levarão essa pessoa? Tal notícia modifica o ritmo da vida, o rumo do barco. Alguns, em meio à tempestade encontram tempo para perguntas existenciais: o ritmo de minha vida até o evento câncer respondeu aos meus anseios fundamentais? Meu estilo de vida corresponde aos valores que preconizo?

Nesse sentido o psicólogo surge como fonte de apoio, de estabilidade. Alguém que ajuda a utilizar as âncoras disponíveis na vida de cada pessoa acometida de câncer. Quando essa estratégia não é possível, resta a aliança terapêutica, a garantia de um psicólogo que espera, escuta, acompanha e silencia, mas sempre procurando delimitar o espaço dos demônios interiores, como a dúvida, a culpa, o medo e a auto-desvalorização. Segue-se na vida do paciente uma série de procedimentos terapêuticos que provocam um sentimento de perda da autonomia. Neste ponto da viagem, encontro no CHRTR psicólogas que acolhem, compreensivamente, a cólera suscitada pela impotência vivida por seu paciente; que a toma como um testemunho privilegiado da vontade profunda do ser humano de preservar sua integridade. É dever humano do psicólogo validar essas forças que o indivíduo vê alienadas pela doença e, também, muitas vezes, pela super-proteção de seus familiares e amigos. Mesmo se os pacientes não tomam as decisões concernentes ao seu tratamento são eles que a seguem. Essa consciência é essencial, segundo Madame Munger, para que a pessoa não se perca em meio aos exames, resultados, consultas, tratamentos, re-avaliações etc. Perder-se de vista é perder a própria direção! O barco se enche de água e a pessoa entra em pânico, perdendo os meios de preservar a qualidade no viver e no morrer.

O psicólogo, com sólida formação humana e científica, pode representar um aliado precioso na humanização dos serviços em oncologia. No espaço da escuta psicológica, a pessoa acometida de câncer tem pleno poder de decisão sobre o ritmo, a constância e os assuntos tratados no contexto terapêutico. O sentimento de controle do próprio paciente tem o poder de atenuar o medo e a ansiedade ligados ao adoecimento. A escuta psicológica é o porto de ancoragem. A aliança que se cria entre psicólogo e paciente permite a este último se desembaraçar de emoções, de pensamentos, de velhas lembranças, de fantasmas secretos que são abandonados nos cantos da sala para que deixem de perseguí-lo. Encontrando e reconhecendo suas fraquezas o indivíduo aprende a utilizar suas forças. As perdas e dores sucedem-se. Elas não se limitam à integridade física, elas tocam as fibras mais profundas do ser humano. Face a tal impotência, o vínculo terapêutico é a ocasião de se reconciliar com o inevitável e de abrandar o sofrimento. Em relação aos familiares, na fase terminal da doença, importa ajudá-los não apenas a sobreviver, mas a viver sem a presença física da pessoa que parte.

Para concluir, encontrei no serviço de psicologia do CHTR companheiros de viagem que estimulam o enfrentamento da tempestade, a descoberta de novas paisagens, de novos mares ainda não explorados. Se alguns sonhos se apagam ao findar de um dia, outros podem nascer nesse mesmo crepúsculo. A morte, como diz Kübler-Ross, pode ser um novo amanhecer. Deixo aqui um pensamento de fé e esperança na mundialização, não aquela do capitalismo selvagem que visa o lucro acima do ser humano, mas sim a esperança na mundialização do respeito e acolhimento ao outro na sua diversidade, na sua alteridade e nas múltiplas estações do viver ...


[1] Parte da Conferência “A humanização em hospitais oncológicos do Canadᔠapresentada pela autora no VII Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, São Paulo, em 11/10/2004.

2 Psicóloga, Professora no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, SP; Doutora em Psicologia Clínica (USP de São Paulo e Sorbonne - Paris V); Pós-doutorado em Psicologia na Universidade de Québec, Canadá. E-mail: doris@power.ufscar.br

A Vivência da Conjugalidade Após o Diagnóstico de Câncer de Mama
Sheila T. Costa de Paula1


Por conjugalidade ou identidade conjugal entende-se a maneira única, ímpar que o casal escolhe de ser, de interagir e que define a existência conjugal, suas características e limites. O casamento caracteriza-se por ser uma das instituições mais antigas e tradicionais da civilização ocidental e é considerado uma relação importante para ambos os sexos uma vez que implica compartilhar a intimidade e um grande investimento emocional, afetivo.

Segundo Dias (2000), a sexualidade é um dos aspectos mais importantes nas relações contemporâneas. Atualmente, é imprescindível, para a escolha do parceiro, que haja compatibilidade sexual com o mesmo, tendo a sexualidade a função de "termômetro" da relação. Os sintomas da paixão e o envolvimento profundo decorrente da fase de enamoramento tornam-se parâmetro para o resto do tempo em que o casal permanecerá junto. Soma-se a essa expectativa a constante estimulação feita pela sociedade de se ter um casal que não deixa sua vida sexual ser afetada pelas conturbações da vida moderna e exige satisfação sexual intensa, o que o leva a questionar e vigiar constantemente a "temperatura" e a qualidade do relacionamento. Conclui-se, pois, que o prazer sexual é uma condição essencial para manutenção do casal como par amoroso nos dias atuais.

O surgimento de uma doença como o câncer é um evento traumático na vida de qualquer pessoa, seja pelo estigma que a doença carrega de morte, dor e solidão, seja pelos tratamentos, na maioria das vezes, agressivos, ou mesmo pelas limitações da medicina em uma área onde ainda há muito a ser descoberto. A interrupção de planos futuros, as mudanças físicas e psíquicas, do papel social e do estilo de vida, bem como as preocupações financeiras e legais são assuntos importantes para o paciente de câncer. É um fato que estimula uma complexa rede de condições que se alternam a cada fase da doença, modificando a dinâmica de vida do paciente, desde sua rotina diária até sua estrutura familiar e conjugal.

O câncer altera muitos aspectos da vida de uma pessoa; o câncer de mama, especificamente, afeta a sexualidade feminina em sua dimensão física e emocional.

A sexualidade, na maioria dos livros consultados, está só e exclusivamente associada à prática sexual. Para alguns autores como Segal (1994), entretanto, a sexualidade é algo mais abrangente, sendo compreendida como a percepção da auto-imagem, vontade de viver e a maneira de se relacionar com outras pessoas. O câncer implica um elevado grau de comprometimento na auto-imagem corporal, podendo acarretar danos ao conceito que se tem de si próprio e a aceitação ou não da própria sexualidade dentro do relacionamento sexual. Quando mudanças quase sempre agressivas e inesperadas ocorrem, alterações igualmente abruptas assolam o senso de identidade da pessoa juntamente com sentimentos de intensa insegurança e medo.

A percepção do próprio corpo é fundamental tanto para se lidar com a própria sexualidade como para se relacionar com o outro. No caso, o seio, representa a característica primordial da identidade feminina, possuindo uma forte carga simbólica de feminilidade, sensualidade e maternidade (Santos, 2003). Por sua importância simbólica, alterações psicossociais podem ocorrer nas pacientes que não aceitam a perda da saúde ou, se mastectomizadas, a perda do seio. O conflito entre a forma idealizada e a real causada pela enfermidade pode ocasionar problemas psicológicos, dificultando o convívio social e conjugal (Ballone, 2001).

Segundo os autores, mesmo quando existe uma forte e satisfatória vida sexual antes da doença, o stress emocional, a dor, a fadiga, o insulto a imagem corporal e a baixa auto-estima decorrentes do diagnóstico e tratamento para câncer de mama podem desorganizar o funcionamento sexual do casal.

Segal (1994) observa que os casais que tentam vencer a dor e o sofrimento sozinhos, isolados um do outro e não compartilham a tristeza tendem a considerar o processo da doença e do tratamento mais difícil.

De fato, é muito difícil predizer como o câncer e seu tratamento vão afetar cada paciente. As mudanças provocadas pela doença indicam que a pessoa precisará se adaptar e descobrir novos caminhos para dar e receber prazer sexual, ao menos temporariamente.

Abeche e Blochtein (in Áran, 1996) consideram que o cônjuge tem um papel fundamental durante todas as fases do tratamento, sendo igualmente imprescindível a interação entre paciente e seu companheiro durante a reestruturação de sua integridade. Um diagnóstico de câncer não significa necessariamente que o relacionamento sexual ou intimidade com o parceiro deve acabar.

Considerando a sexualidade como uma das partes da vida do casal, de tal maneira que, se esta parte do todo for alterada, seja uma mudança positiva ou negativa, a configuração deste todo sofrerá modificações. As partes são interdependentes, não há como vivenciar uma experiência traumática como o câncer sem afetar os outros "departamentos" do casamento.

Naturalmente, com o aparecimento de uma doença crônica e grave, o processo de construção ou de manutenção da identidade conjugal é modificado ou alterado, novas demandas surgem, as questões não são as mesmas, muito menos as prioridades, e o casal, bem como a família, estabelecem outro tipo de “jogo interacional”, onde a flexibilização ou mesmo a troca de papéis é inquestionável. Esta alteração por si só já pode trazer problemas sexuais aos casais devido aos papéis sexuais femininos e masculinos serem rigidamente estereotipados na sociedade latino-americana.

A vida sexual, como vimos, tem uma importância fundamental na vida das pessoas pela própria natureza e até porque somos bombardeados, constantemente, pela mídia que incita nossa vida a ser repleta de paixão e romantismo - ao que Jablonski (1998) nomeou de "cultura do descartável", ou seja, tudo vai muito bem enquanto há novidade e algo a se explorar, ou ainda, enquanto há paixão no relacionamento. Deve ser realmente difícil conseguir ficar com alguém em uma situação tão amedrontadora, de tanto sofrimento, que requer uma reestruturação relacional, familiar e paciência e dedicação frente a uma sociedade que valoriza os valores estéticos e garante as vantagens de não se criar vínculos afetivos profundos...

Cada casal responderá às dificuldades de uma maneira peculiar, ou simplesmente, desistirá de enfrentar os obstáculos, aderindo à tal "cultura do descartável". E é claro que existirão vantagens e desvantagens a cada opção.

As mulheres acometidas pelo câncer de mama passam por uma experiência, sem dúvida alguma, dolorosa. Entretanto, a doença traz uma rica oportunidade de se reavaliar sentimentos e posturas dentro da relação conjugal e resignificar sua sexualidade de uma forma potencializadora a fim de encontrar a qualidade de vida desejada.

Conversando com muitas pacientes com câncer de mama, não tendo as mesmas feito necessariamente a cirurgia da mama radical ou parcial, testemunhei que as que possuem um companheiro, seja de que ordem for, marido, parceiro, namorado, são abandonadas durante o tratamento.

O modelo mecanicista, através do qual médicos e paramédicos aprenderam e foram treinados a “olhar” para os pacientes, faz com que subestimem os efeitos que certamente irão alterar a auto-imagem, auto-estima e sentimento de atratividade das pacientes. O importante, além dos cuidados físicos, é a sensibilidade dos profissionais para perceberem como a postura e a conduta junto às pacientes contribuem para uma avaliação positiva como ser humano (Segal, 1994).

Fica evidente a necessidade de estudos e pesquisas específicas no tema em questão para que os profissionais da saúde possam realizar intervenções mais qualificadas e que possibilitem a compreensão de que cada casal se encontra em uma fase bastante estressante como uma das muitas que fará parte da reestruturação da conjugalidade, não deixando nunca de considerar que esse mesmo casal é capaz de enfrentar este desafio com sucesso.



Referências Bibliográficas



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DIÁLOGO VIVIDO ENTRE ENFERMEIRA E MÃES DE CRIANÇAS COM CÂNCER

Nailze Figueiredo Souza de Oliveira

Dissertação de Mestrado – Centro de Ciências da Saúde/Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2003.


O aumento progressivo do número de casos de crianças com câncer no cenário brasileiro tem despertado muitos profissionais da saúde para a realização de pesquisas que contribuam para uma assistência de qualidade para essa clientela e seus familiares. Nas unidades de saúde direcionadas ao tratamento do câncer infantil, observa-se claramente que a mãe é o familiar que acompanha a criança com maior freqüência, tanto para o tratamento ambulatorial como hospitalar. Dessa forma, se torna também uma cliente que necessita dos cuidados de enfermagem.

Este estudo consiste em uma pesquisa de campo de natureza qualitativa, direcionada ao cuidar em enfermagem cujo objetivo foi compreender o diálogo vivido entre enfermeira e mães de crianças com câncer à luz da Teoria de Enfermagem Humanística de Paterson e Zderad. As participantes do estudo foram seis mães que acompanhavam suas crianças com câncer na Unidade de Pediatria do Hospital Napoleão Laureano referência no atendimento de clientes com câncer na cidade de João Pessoa – Paraíba, no período de outubro a dezembro de 2002. O diálogo vivido foi desenvolvido com base nas fases da Enfermagem Fenomenológica.

A primeira fase, Preparação da enfermeira para vir a conhecer, consistiu na busca do autoconhecimento como pré-requisito para o vir a conhecer as mães de crianças com câncer.

A segunda fase, A enfermeira conhece o outro intuitivamente, representou os encontros com as mães na unidade de pediatria, momentos em que surgiram os chamados e as respostas da relação Eu-Tu. Nesta fase, os dados emergiram dos encontros entre enfermeira e mães a partir da técnica de entrevista e foram registrados no diário de campo. As demais fases serviram de base para a análise dos dados, que se constituiu nos momentos da relação Eu-Isso: A enfermeira conhece o outro cientificamente; A enfermeira sintetiza de forma complementar as realidades conhecidas e Sucessão interna da enfermeira do múltiplo para a unidade paradoxal. Da análise dos dados emergiram as seguintes categorias: Mães diante da descoberta do diagnóstico; Mães diante do tratamento da criança; Mães diante da adaptação ao ambiente hospitalar; Mães carentes de informações; Mães com problemas no contexto familiar; Mães com saúde física e emocional afetada; Mães buscando formas de enfrentamento; Mães vivenciando momentos de alegria.

O diálogo vivido intuitiva e cientificamente possibilitou às mães receberem cuidados que promovessem o seu bem-estar e estar-melhor na situação vivenciada com seus filhos. Também possibilitou a reflexão, conceitualização e descrição de um fenômeno que revelou o ser-com e o fazer-com da enfermeira numa relação humanística com mães de crianças com câncer.

Esta pesquisa possibilita novas perspectivas no que concerne ao cuidar em enfermagem, ao ensino, pesquisa e extensão.



Palavras-chaves: Enfermagem –- Criança com câncer – Cuidado familiar

Ser-no-mundo com a criança portadora de câncer: compreendendo a experiência e psicólogos nos serviços de oncologia pediátrica de Natal-RN.

Sílvia Morais Perez





O câncer continua a ser uma doença temida pela humanidade; não raro, é considerado como sinônimo de morte, sofrimento e estigma. Ocorrendo na infância, esse significado parece adquirir uma conotação ainda mais intensa, tendo em vista o sentimento de piedade e perplexidade dos adultos diante da precocidade do evento quase sempre associado à morte. A co-existência do psicólogo com a criança portadora de câncer, vai adquirindo, assim, um sentido permeado por incógnitas, medos e fantasias, que nos suscitou o seguinte questionamento: como o psicólogo que atende crianças com câncer vivencia esta experiência?

O objetivo desta pesquisa foi, portanto, compreender esta experiência de co-existência. Nossa perspectiva teórica advém da fenomenologia existencial e, mais especificamente, da Abordagem Centrada na Pessoa e da Ontologia Existencial de Martin Heidegger. A metodologia é qualitativa, de caráter fenomenológico. O instrumento de acesso à experiência foi a narrativa, tal como proposta por Walter Benjamin.

Foram realizadas nove entrevistas semi-abertas com psicólogas que trabalham nos serviços de oncologia pediátrica da cidade do Natal-RN. Tais entrevistas foram gravadas em fitas cassete, transcritas, e posteriormente, literalizadas. A compreensão das narrativas foi realizada com base na ontologia heideggeriana, na leitura exaustiva dos dados e no recorte de trechos indicativos do sentido da experiência de ser psicólogo nessa área.

A pesquisa sugere que a experiência é norteadora do saber-fazer clínico, sendo atravessada pelas implicações de temáticas-chaves que indicam o cuidado como elemento ontológico central que orienta o modo como estes profissionais vêm-sendo-no-mundo, juntamente com sua clientela. Além disso, a experiência de cuidar dessas crianças adquire o sentido de verdadeira lição de vida, uma vez que o câncer desfaz a ilusão de imortalidade, lançando o psicólogo à sua condição de ser-para-a-morte, e com isso, convocando-o a autenticidade. Não se trata apenas de vivenciar a angústia e a iminência de morte, mas, sobretudo, de ressignificá-las em prol de um aprendizado contínuo, de atendimentos de qualidade, dentre outras possibilidades.

Trabalhar com câncer infantil traz novas perspectivas e visões de mundo, fazendo do psicólogo uma pessoa mais humana e sensível às necessidades alheias. E acreditamos que independente da área de atuação, ser psicólogo é uma maneira particular que escolhemos para ser cidadão. É um projeto que será delimitado pela sociedade, pela história e pela cultura, e enfim, por nós enquanto seres-no-mundo.

Por isso, entendemos que os resultados desta pesquisa sugerem o aprofundamento das temáticas discutidas neste campo de intervenção, a fim de novas possibilidades de sentido possam emergir, dando margem a outras reflexões sobre a prática clínica, a formação profissional em Psicologia, dentre outros possíveis desdobramentos.

Palavras-chave: Psicooncologia Pediátrica; cuidado; morte; angústia, fenomenologia.



"A criança com câncer vivenciando a reinserção escolar: estratégia de atuação do psicólogo"

Gisele Machado da Silva(1); Elizabeth Ranier Martins do Valle



1- Introdução

As técnicas terapêuticas e os medicamentos utilizados no tratamento do câncer infantil vêm apresentando grande evolução no que se refere ao potencial curativo e à diminuição de efeitos colaterais, facilitando à criança e sua família a manutenção das atividades cotidianas durante o longo período de tratamento (Valle, 1997).

No entanto, situações de adoecimento prolongado como as suscitadas pelo câncer infantil, comumente acompanhadas de restrições físicas, internações e procedimentos médicos invasivos, podem alterar o desenvolvimento psicossocial da criança. Na tentativa de minimizar alguns aspectos sociais, comportamentais e emocionais associados às criança em tratamento de câncer, tais como, isolamento social, timidez, preocupação excessiva com a saúde, atraso escolar, baixo desempenho em testes de inteligências, dentre outros, a escolaridade da criança doente tem ganhado destaque (Spinetta-J & Spinetta-D, 1986).

A freqüência escolar é importante para a formação da identidade pessoal e social da criança, além de facilitar o desenvolvimento de habilidades cognitivas, dentre outras. Para a criança com câncer, o convívio com o ambiente escolar constitui-se em um parâmetro de normalidade, por proporcionar-lhe a vivência de experiências comuns e próprias a sua faixa etária, assim como o afastamento do mundo hospitalar (Torres,1999). No ambiente escolar, o cuidado prestado à criança em tratamento deve se ater aos limites dados, ao incentivo a autonomia e produtividade, respeitando-se eventuais limitações e suprindo-se necessidades específicas.

Todavia, os efeitos colaterais advindos da quimioterapia, radioterapia ou de cirurgias, como por exemplo, alterações sensorias, alopecia, dificuldade de memória, atenção, raciocínio, dificuldade de locomoção, restrições físicas e alimentares, são sentidos e ressaltados no setting escolar, dificultando direta ou indiretamente a escolaridade das crianças. Segundo Herold & Roetzhein (1992) estes efeitos colaterais aumentam entre 30 e 40% o risco de problemas de aprendizagem devido, sobretudo, a faltas e ao não cumprimento de atividades.

De acordo com a literatura específica, a integração da criança com câncer à escola tem se apresentado como uma tarefa difícil para as próprias crianças doentes, seus pais, professores e colegas. Em geral, a escola não está preparada para receber seu aluno com câncer devido à raridade da doença, à desiformação sobre as implicações da mesma para a criança no contexto escolar e, mesmo, devido idéias preconceituosas e estigmatizantes associadas à doença.

Assim, os professores sofrem com a falta de informação sobre o câncer em geral, e muitas vezes, com a desinformação sobre o tratamento e o prognóstico específicos de seu aluno, apresentando dificuldade em esclarecer as dúvidas diretamente com a família da criança por razões pessoais ou dificuldades inerentes às próprias famílias em tratar do assunto na escola. Os professores também sentem-se inseguros frente à postura a ser adotada diante da turma, ou seja, vivenciam o conflito entre falar abertamente o nome da doença e dar detalhes sobre o tratamento e os efeitos colaterais apresentados pelo aluno ou negligenciar informações na tentativa de protegê-lo.

As famílias têm receio da comunicação do diagnóstico na escola e suas implicações referentes a atitudes discriminatórias por parte de diretores, professores e colegas, além do medo da criança sofrer algum tipo de intercorrência médica no período de aula, ser exposta a doenças infecto-contagiosas, dentre outras.

Por sua vez, as crianças doentes sentem vergonha devido à aparência física modificada, caracterizada principalmente pela alopecia e uso de máscara de proteção, medo de tornarem-se alvo de curiosidade na escola e não conseguirem acompanhar o desempenho acadêmico da turma, dentre outras.

Diante deste contexto que evidencia a importância e os entraves da escolaridade da criança com câncer a SIOP- Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica-(2000), divulgou em seu boletim de orientações psicossocias a relevância de programas de comunicação entre hospital e escola como forma de facilitar a escolaridade da criança durante o tratamento, proporcionando-lhe condições de desenvolvimento intelectual, social e emocional, além de qualificá-la para o trabalho.

Dentro desta perspectiva, Estados Unidos e Europa têm divulgado Programas de Comunicação entre Hospital e Escola que se originam a partir das demandas apresentadas pelos pacientes e seus familiares e se desenvolvem de acordo com o referencial filosófico e as possibilidades de cada serviço. Não são citados modelos de programas a serem seguidos, mas há unanimidade no que se refere ao potencial que a informação dispõe no sentido de interferir positivamente no convívio da criança doente com as demais. Henning & Fritz (1983) evidenciam a importância dos programas de reinserção escolar respeitarem a individualidade dos casos, terem uma equipe com objetivos comuns, comprometida com a avaliação de procedimentos e com a resposta de questões típicas na escola, tais como, "Meu colega vai morrer?"

Tendo em vista a importância da criança com câncer manter sua escolaridade e entendendo que atividades informativas sobre o câncer infantil podem atuar como facilitador para a manutenção da vida acadêmica da criança doente, apresenta-se este estudo, tendo como objetivo: Ouvir crianças com câncer sobre sua vivência de voltar à escola durante seu tratamento oncológico, após um trabalho informativo realizado com seus colegas e professores.

Entende-se que os resultados possibilitarão conhecer como a criança com câncer vivencia sua reinserção escolar, tendo em vista o suporte informativo preparando sua volta.

2-Trajetória Metodológica

Participaram deste estudo oito crianças, de ambos os sexos, com idades variando entre cinco e 11 anos, em tratamento de câncer, residentes em municípios do interior do Estado de São Paulo e atendidas no HCFMRP-USP durante o ano 2000. As crianças estavam reiniciando sua freqüência escolar interrompida devido a implicações decorrentes de seu adoecimento e suas escolas foram assistidas por atividades informativas sobre o câncer.

Os materiais utilizados foram TV, vídeo cassete e a fita de vídeo do desenho informativo "Não tem Choro" (1990).

Procedeu-se o contato com as crianças e suas famílias informando-lhes sobre este estudo, que se propunha a: 1) Realizar um trabalho informativo sobre o câncer infantil na escola da criança; 2) Entrevistar a criança aproximadamente um mês após sua volta à escola. Mediante o interesse de ambos em participar, foi solicitada a assinatura do responsável pela criança do "Termo de Consentimento Informado".

Os dados analisados constituem-se por entrevistas gravadas e integralmente transcritas, realizadas individualmente com as crianças no ambulatório do HCFMRP-USP, por ocasião do retorno hospitalar. Estas deram-se aproximadamente 30 dias depois das crianças retomarem sua freqüência escolar, após a exibição do filme informativo com seus colegas e basearam-se na seguinte questão norteadora: "Gostaria que você me contasse como está sendo voltar para a escola depois deste tempo que você passou afastado para se tratar".

O Trabalho Informativo caracterizou-se pela exibição aos alunos que estudam no período da criança doente e respectivos professores, em sala de aula, de um desenho animado, no qual é contada a história de uma menina que adoece de câncer e interrompe a freqüência às aulas para se tratar. Este desenho foi seguido de uma recapitulação livre com os alunos dos principais aspectos abordados no filme, levantando questões como a etiologia da doença, diagnóstico, tratamento, cura e reinserção escolar do colega doente. Foram distribuídos materiais informativos sobre o câncer infantil aos alunos.

As entrevistas foram analisadas de acordo com a "análise da estrutura dos fenômeno situado" (Martins & Bicudo, 1989 ), através dos seguintes passos:

· Leitura inicial exploratória.

· Releitura atentivamente buscando detectar as "unidades de significado", ou seja, focalizando, na fala dos participantes, aspectos diretamente relacionados à questão proposta.

* Síntese das "unidades de significado", transformadas em uma proposição referente à experiência das crianças.

3-Resultados

A análise fenomenológica das entrevistas revelou as seguintes unidades de significado:

As crianças mostraram dificuldades relativas à integração social e a aspectos emocionais frente à reinserção escolar durante o tratamento oncológico em um momento anterior à realização do trabalho informativo

"...Quando eu usava máscara e você ainda não tinha ido lá...os moleque zombava de mim e eu...não sabia o que fazer, né! Foi uma prova de vida! Uma lição de vida pra mim!" (Joaquim, 9a, 4ª série)

As crianças desenvolveram alternativas para garantir a manutenção da freqüência escolar antes da realização do trabalho informativo

"Eu ficava na cozinha da escola, lá com as mulheres...Ah! Eu ficava lá, eu conversava com as mulher..." (Joaquim, 9a, 4ª série)

As crianças sentiram segurança diante do trabalho informativo sobre o câncer realizado na escola

"Mas...depois que eu voltei pra escola que teve a palestra, todo mundo me acha uma criança normal!" (Luã, 11a, 5ª série)

As crianças revelaram o esforço necessário para acompanhar o desempenho acadêmico da turma durante o período de adoecimento

"Eu pego a matéria antes...para levar no outro dia (quando falta da escola)...Porque eles dão uma assinatura que vale ponto!...É se levar no dia certo! " (Júlia, 11a, 6ª série)

As crianças compreenderam a necessidade de freqüentar a escola, como um meio de inclusão e convergência de contatos sociais, por se tratar de uma atividade comum à infância

"...E ficar em casa sem ir pra escola não é bom, porque não tem nem com quem brincar, porque as crianças tão na escola. A gente sente falta da escola, ficar só em casa é ruim. Agora nas férias eu já tava com vontade ir pra escola." (Luã, 11a, 5ª série)

As crianças revelaram sua percepção sobre as limitações impostas pelo tratamento, dentro e fora da escola

"Na escola eu não fazia educação física não, num faço até hoje." (Luã, 11a, 5ª série)

As crianças perceberam que a manutenção da freqüência escolar possibilitava o aprendizado e o estabelecimento de projetos e perspectivas de sobrevivência

"Ah, pra seguir minha vida, né (referindo- se à volta à escola). Eu preciso...conviver com as pessoas, ter meus amigos...Eu tenho, eu quero me formar numa faculdade." (Júlia, 11a, 6ª série)

As crianças revelaram sentimento de integração ao ambiente escolar após o trabalho informativo

"Ah, agora eu me sinto normal, como antes!" (Luã, 11a, 5ª série)

4- Considerações finais

O trabalho informativo proposto possibilitou a compreensão dos alunos sobre o câncer infantil e suas implicações no cotidiano escolar da criança doente, minimizando a curiosidade e atitudes hostis como apelidos e zombarias direcionadas a esta criança.

Por sua vez, a partir das atividades informativas, as crianças com câncer puderam ter a tranqüilidade necessária para desempenharem suas atividades acadêmicas, todavia, não perderam contato com a realidade de serem alunos em tratamento de câncer, o que foi evidenciado pelas limitações físicas a que estavam impostas, além de restrições alimentares, uso de máscara de proteção, dentre outras. As crianças com câncer revelaram a busca pelo desenvolvimento de seu potencial produtivo através do desejo e esforço para estarem na escola relacionando-se com seus pares em condições de igualdade.

Devido aos ganhos no tocante à integração social da criança com câncer na escola o trabalho informativo proposto foi adotado como procedimento de rotina pelo GACC-RP (Grupo de Apoio à Criança com Câncer de Ribeirão Preto), entidade filantrópica que presta serviços às crianças com câncer e suas famílias atendidas no HCFMRP-USP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto- Universidade de São Paulo).

5-Bibliografia

HENNING, J.; FRITZ, G. K. School re-entry in childhood cancer. Psychosomatics, v.24, n. 23, p. 261-9, 1983.

HEROLD, A.; ROETZHEIM, R. Cancer Survivors. Primary Care, v. 19, n. 4, p. 779-791, 1992.

MARTINS,J.; BICUDO, M.A.V. A pesquisa qualitativa em psicologia. São Paulo, Moraes, 1989.

NÃO TEM CHORO. [ Filme- vídeo]. Criação de Charles M. Chulz. Stamford- Califórnia- USA. Mendelson & Charles M. Chulz Creative Production Assiociation, 1990. 22 min. color. son.

SIOP (Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica). Orientações Psicossociais em Oncologia Pediátrica. Trad. Luciana P. C. Françoso e Elizabeth R. M. do Valle. Brasil, 2000.

SPINETTA, J.; SPINETTA, D. The patient’s socialization in the community and school during therapy. Cancer, v. 58, p. 512- 515, 1986.

TORRES, W.C. A Criança Diante da Morte: Desafios. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1999.

VALLE, E.R.M. Câncer infantil: Compreender e agir. Campinas, Editorial Psy, 1997.



Baseado em Dissertação de Mestrado: SILVA, G.M. A criança com câncer vivenciando a reinserção escolar: estratégia de atuação do psicólogo. Ribeirão Preto, 2002. 175 p. Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP, Departamento de Psicologia e Educação.

Psicóloga, Mestre e Doutoranda em Ciências, área de concentração Psicologia, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP. E-mail: gi.msilva@ig.com.br



O tratamento do câncer infantil - o livro das crianças

Luciana Pagano Castilho Françoso


A história do livro das crianças



É tendência crescente observada em centros e serviços de Oncologia Pediátrica no Brasil e no mundo a elaboração de folhetos, livretos e material áudio-visual com informações sobre o câncer infantil e seus tratamentos, voltados para as próprias crianças e seus familiares. Esta tendência apóia-se no consenso a respeito da necessidade da criança doente e das pessoas que a cercam estarem informados apropriadamente sobre a realidade que estão vivendo. Informados, podem situar-se e enfrentar as situações de modo mais saudável e ajustado, participando ativamente das decisões e usufruindo de suas possibilidades de vida apesar das limitações trazidas pela doença e pelos tratamentos (SIOP, 1999).

Este material informativo é, portanto, importante instrumento na assistência em Oncologia Pediátrica, já que dá suporte e contribui para inúmeras intervenções psicossociais que visam à qualidade de vida da criança com câncer.

Existem diversas maneiras de elaborar estas informações. O livro das crianças foi criado e elaborado pelas próprias crianças com câncer. Trata-se, pois, de uma experiência inovadora. As próprias crianças, a partir de suas vivências, tiveram a oportunidade de selecionar e elaborar as informações que julgam ser importantes de serem compartilhadas com outras crianças com câncer e o adultos que as cercam, para que vivam melhor, cada um a seu modo, a experiência de enfrentar o adoecimento.

A idéia de produzir o livro das crianças foi gestada no decorrer da realização de meu projeto de doutorado(FRANÇOSO, 2001). Quando planejei realizá-lo, defini enquanto objetivo a investigação das vivências de crianças com câncer, no sentido de compreender como era para elas conviver com o adoecimento e suas conseqüências. Meu intuito era considerar a própria perspectiva da criança, e para isto precisava realmente estar com ela. Optei por realizar meu trabalho junto ao grupo de apoio psicológico, pois minha experiência na área apontava-me para a possibilidade de um caminho promissor. Sou psicóloga do GACC– Grupo de Apoio à Criança com Câncer, e atuando junto aos pacientes atendidos no Serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto- USP, venho coordenando o grupo de apoio às crianças, intervenção psicológica que integra a rotina de nossa assistência, desvelando aspectos importantes das vidas e das maneiras de lidar com as situações vividas pelas crianças(FRANÇOSO&VALLE, 1994, 1999, 2000).

O livro das crianças, é, portanto, um dos produtos de meu estudo. A criação deste livro surgiu como uma maneira possível de fazer emergir idéias, pensamentos e sentimentos em relação à vivência comum a todos: a convivência com o câncer e seu tratamento durante a infância. Favoreceu sua gestação minha atitude de abertura em relação às crianças participantes, abertura delimitada apenas pelo setting grupal proposto. Esta abertura permitiu-me estar com as crianças em seus movimentos diversos durante as sessões, seguindo-os a partir de minha escuta atenta e envolvida. Minha disponibilidade para o que deles surgisse, possibilitou-nos uma interação flexível o suficiente para que se configurasse um espaço propício à criação de algo novo.

Penso que a possibilidade de ouvir as crianças, permitindo que elas conduzissem o movimento grupal de acordo com suas necessidades, unida à percepção da fundamental importância das crianças participarem ativamente dos processos de informações que se dão no decorrer do tratamento configuraram a base da criação do livro. Fui apenas uma espécie de porta-voz da idéia de criarmos o livro das crianças - e foi neste papel que me mantive durante seu processo de criação. Tal atitude está baseada nos fundamentos teóricos e metodológicos que guiaram meu estudo e que tem norteado meu trabalho no campo da Psico-oncologia Pediátrica de modo geral. Trata-se da Psicologia Fenomenológica, de acordo com as propostas de GIORGI(1985), MARTINS E BICUDO(1989), FORGHIERI(1991) e VALLE(1997).

Assim, além de incluído em minha tese enquanto fragmentos das vivências das crianças que participaram de seu processo de criação, o livro das crianças está à disposição para ser usado pelo GACC-Grupo de Apoio à Criança com Câncer no serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP ou por qualquer serviço que desejá-lo. Penso que pode ser um material informativo útil às crianças que iniciam o tratamento, e sugiro que seu uso seja planejado de forma sistematizada.

Durante o processo de criação do livro, o grupo reuniu-se semanalmente durante 1 hora, em local e horário fixos, numa sala do ambulatório do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. As crianças participantes, em média 5 em cada sessão, tinham diferentes diagnósticos de câncer e encontravam-se em diferentes fases de seus tratamentos. Suas idades variavam de 3 a 16 anos.

Tratava-se de um grupo aberto, já que cada sessão contou com a participação de crianças que estavam em retorno ambulatorial no dia da realização do grupo. Estas eram convidadas a participar da sessão, e quando aceitavam, era explicado à elas e a seus acompanhantes o objetivo da realização do grupo. A seguir, as crianças eram levadas a sala na qual encontrava-se disponível para uso material gráfico (papel, lápis de cor, giz de cera, tinta, etc... ) e lúdico (bonecos, carros, massa para modelar, potes de tamanhos diversos, jogos, etc... ).

Na sala, eu apresentava-me, informando o horário e o objetivo do grupo, que era a elaboração do livro. Após as apresentações eu introduzia a sugestão da seguinte maneira:

Estou querendo que vocês me ajudem a escrever um livro com informações sobre a doença e o tratamento, para que as crianças que estão começando a tratar-se possam enfrentar as situações entendendo melhor o que está acontecendo. Preciso que me digam o que acham importante escrever neste livro.

O grupo aceitava minha sugestão, e as crianças sempre mostraram-se cooperativas diante de minha proposta. As idéias eram lançadas, recusadas, complementadas, debatidas e ilustradas. Meu papel era ser a redatora: tentava captar uma idéia comum e escrevê-la da forma como estava sendo colocada. Após redigir cada idéia trabalhada pelo grupo, lia minha redação e as crianças aceitavam ou não, corrigindo-a e/ou complementando-a quando necessário.

É importante ainda relatar que o estudo do qual o livro emergiu possibilitou-me compreender dimensões importantes da experiência de conviver com um câncer na infância. As crianças participantes de minha pesquisa mostraram-me suas dificuldades decorrentes do enfrentamento de situações tão dolorosas e sofridas como a percepção dos sinais da doença em seus corpos, os exames e procedimentos médicos, as conseqüências dos tratamentos realizados. Sua vida, seu crescimento e seu desenvolvimento passam a ser determinados pelas demandas das situações engendradas pelo adoecimento.As limitações vividas são inúmeras e peculiares – cada criança é única, faz parte de um meio familiar e social específico, adoece de modo especialmente singular e lida com esta situação também de maneira que lhe é própria.

No entanto, por tratar-se de uma doença grave cujo desfecho é sempre incerto, a possibilidade de morte traz uma perspectiva da realidade comum a estas crianças e aos adultos que a cercam: a perspectiva da finitude, que é própria de nossa condição humana. Na situação de adoecimento tal perspectiva torna-se inevitável. Emerge no momento do diagnóstico, está na base de problemas relacionados à comunicação com as crianças, faz-se presente nas situações vividas no decorrer do tratamento, é intensificada nos momentos críticos que envolvem pioras clínicas, expectativas diante de exames ou procedimentos médicos.

Se por um lado tal perspectiva desvela consigo uma vivência de angústia dolorosa, que se manifesta também de modo peculiar a cada criança ou a cada adulto que com ela convive, por outro provoca um redimensionamento da vida e de suas possibilidades. No decorrer de meu trabalho deparei-me com crianças e cuidadores que expressavam uma incrível capacidade de tirar proveito de pequenas coisas do dia a dia – como saborear uma comida gostosa, felicitar-se com uma visita inesperada, ter prazer em uma brincadeira compartilhada. Mostravam a capacidade de aproveitar a vida com suas possibilidades, de modo genuinamente envolvido.

Trata-se de uma questão relacionada à saúde existencial das pessoas envolvidas, conforme a concepção de FORGHIERI (1993). Saúde existencial, qualidade de vida, ajustamento ou adaptação à situação pós crise.... Há diversas maneiras de referir-se à mesma situação, que diz respeito a uma potencialidade que é humana, e que em alguns mostra-se mais desenvolvida e em outros menos: a capacidade de viver a vida como ela é, com limitações e possibilidades, fluindo em movimentos que nos fazem tocar e ser tocados pela presença dos outros que nos cercam.

O trabalho do psicólogo neste contexto de adoecimento que caracteriza a área da Psico-oncologia Pediátrica visa a auxiliar e/ou a facilitar o desenvolvimento desta potencialidade. As diversas intervenções psicológicas que constituem a assistência às crianças com câncer e seus cuidadores tem por objetivo favorecer a compreensão destas pessoas da realidade na qual estão inseridos para que possam encontrar o sentido de suas ações e reações, cuidando-se e cuidando do outro para que a vida seja vivida em sua plenitude.

O livro das crianças emerge, assim, como mais um recurso possível, visando favorecer a adaptação saudável da criança e de seus cuidadores à experiência de enfrentar um câncer na infância.


Luciana Pagano Castilho Françoso

Psicóloga do GACC- Grupo de apoio à criança com câncer (Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP), Mestre em Saúde Pública (Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP), Doutora em Psicologia (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP).

Nota: O livro das crianças pode ser solicitado através do e-mail lucianapcf@cinap.com.br


Referências bibliográficas



FORGHIERI, Y. Fenomenologia do existir de uma professora universitária. São Paulo, 1991. Tese (Livre-Docência) Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.



___________. Psicologia Fenomenológica: fundamento, método e pesquisas. São Paulo, Pioneira, 1993.



FRANÇOSO,L. Vivências de crianças com câncer no grupo de apoio psicológico: estudo fenomenológico. Ribeirão Preto, 2001. Tese(Doutorado) Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.



FRANÇOSO, L.&VALLE,E. A criança com câncer- estudo preliminar. Pediatria Moderna, v. 35, n. 5, p. 320-31, maio 1999.



__________. Grupo de apoio psicológico- possibilidade de intervenção psicológica junto à criança com câncer. Pediatria Atual. v. 13, n. 3, p. 32-6, março 2000.



__________. Histórias contadas por crianças com câncer. Acta Oncológica Brasileira, v.14, n 4, p.167-74, agosto-setembro 1994.



GIORGI,A. Phenomenology and Psychological research. Pittsburg Duchesne University Press, 1985.



MARTINS, J.& BICUDO, M. A pesquisa qualitativa em Psicologia. Fundamentos e recursos básicos. São Paulo, Moraes/EDUC, 1989.



SIOP(Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica). Orientações psicossociais. Ribeirão Preto, Comitê de Psico-oncologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia,/ Gacc- Grupo de Apoio à criança com câncer, 1999.



VALLE, E. Câncer infantil: compreender e agir. Campinas, Psy, 1997.





4 ESTAÇÕES - INSTITUTO DE PSICOLOGIA

Suporte psicológico para situações de perda e luto.
www.4estacoes.com



O papel do psicólogo no hospital lidando com casos de Câncer

The Role of Health Psychologist in Dealing with Cancer Cases




Celeste Mª. dos S. Figueiredo
Joicy Mara Pereira de Freitas
Marcela Mª. de Oliveira Costa

Centro Universitário Luterano de Manaus – ULBRA



Kornilia Hatzinikolaou, PhD

RESUMO

É abrangente, notória e cada vez mais significativa a atuação do psicólogo no ambiente hospitalar, e especificamente no trabalho com doenças crônicas como o câncer. A atuação no ambiente hospitalar possibilita um maior entendimento da relação existente entre a saúde física e mental e, da importância dos aspectos psicológicos para o desenvolvimento e tratamento de doenças crônicas como o câncer. A saída brusca do convívio diário com a família e os amigos, a relação interpessoal com os profissionais de saúde e o recebimento da confirmação da doença de câncer, induzem ao indivíduo a negação do diagnóstico, depressão, aflição e medo de morrer – causando inclusive em alguns casos uma piora do quadro clínico, isso porque no quadro somático apresentado encontra-se grande carga emocional. A família também vivencia a doença com incerteza, impotência e choque no recebimento do diagnóstico de seu ente querido. É nesse momento que o profissional em psicologia age, auxiliando o paciente e a família a lidar com a doença e as mudanças comportamentais que surgem, utilizando intervenções apropriadas ao contexto, visando sempre com isso, o equilíbrio psíquico do indivíduo e da família.
Palavras Chaves: psicologia hospitalar; câncer; aspectos psicológicos; intervenções.


ABSTRACT

The practice of psychology within the hospital environment is widespread and well known, particularly in the case of chronic illnesses such as cancer. Health Psychology allows a greater understanding of the relationship between physical and mental health and of the importance of the psychological factors in the course and treatment of chronic illnesses. The sudden departure from daily life with family and friends, the daily contact with health professionals along with a positive diagnosis for cancer often provoke denial, depression, affliction, and fear of death - in some cases the great emotional burden intrinsic in such pathology might result in a worsening of the clinical condition of the individual. The family also experiences the illness with uncertainty, powerlessness and shock on receiving news of the diagnosis of their dear one. At that point, the health psychologist should act, assisting

should act, assisting the patient and the family in dealing with the illness and the behavioral changes that arise, applying clinical interventions appropriate to the context, keeping always in mind that the ultimate target is the psychological equilibrium of the individual and the family.
Key Words: Health of Psychology; cancer; psychological factors; interventions.





INTRODUÇÃO

A inclusão de Psicólogos nos hospitais é necessária e urgente (CAMPOS, 1995). Em seu livro sobre Psicologia Hospitalar, a Terezinha Campos (1995) enfatiza que “o psicólogo tem papel Clinico, Social, Organizacional e Educacional, abrangendo uma Psicologia preventiva e de tratamento”. (pág. 11).

Em suas pesquisas, Campos (1995) observou que os profissionais de saúde (por exemplo, técnicos em enfermagem) manifestavam dificuldade de interagir com pessoas portadoras de patologias, portanto, havia necessidade de obter informações sobre a doença e o doente. Ainda, os pacientes expressavam vários modos e condutas quando internados e em tratamento hospitalar, com os quais os profissionais de saúde tiveram dificuldade de entender e lidar com eles. Por esses motivos, a autora percebeu-se a significante presença de Psicólogos no ambiente hospitalar.

Viu-se também (CAMPOS, 1995) que a pessoa que buscava atendimento hospitalar, não queria somente atendimento cirúrgico, clínico, neurológico e medicamentoso, mas também, havia uma necessidade de acompanhamento psicológico, tanto para si mesmo, como para o acompanhante. Foi notado ainda, que o paciente não queria ser apenas examinado, mas ser ouvido e entendido em sua própria linguagem; e com o acompanhamento psicológico sentia-se melhor e era mais colaborativo com os profissionais de saúde que o ajudavam; seus familiares também eram levados a compreender a importância de sua participação e colaboração no restabelecer do paciente.

O estado emocional humano sofre alterações significativas em indivíduos que encontram-se em situações limites, como o recebimento do diagnostico da doença de câncer, por exemplo. Essas mudanças no estado emocional podem influenciar a aceleração e diminuição da doença. Ao outro lado, o recebimento do prognóstico traz ao indivíduo sentimentos de negação a doença, pois aceitá-la é, em muitos casos, o mesmo que concordar com a possibilidade de morte. Por esse motivo, a inclusão de Psicólogos em hospitais é considerada necessária para dar suporte aos pacientes e familiares antes e após o recebimento do diagnóstico e do prognostico.

É sugerido que o tratamento, especialmente de pacientes com doenças crônicas, envolve toda uma equipe multidisciplinar. O objetivo principal desta equipe deveria ser, não apenas a cura física, mas também uma estrutura psicológica saudável, buscando a qualidade de vida do paciente e de sua família, amenizando as dificuldades e fatores estressantes que não acrescem em nada na superação da doença. No contexto deste trabalho multidisciplinar, um bom profissional de Psicologia busca estudar a relação que existe entre o corpo físico, com a estrutura emocional e psicológica do indivíduo, lembrando que, em geral, as alterações que ocorrem na vida do paciente – desde os efeitos dos medicamentos, até a internação em um hospital – geram um estresse físico e emocional, podendo dificultar a reação positiva do organismo à doença.

Ainda, é papel do psicólogo da Psicologia Hospitalar criar uma visão sistêmica do bem-estar humano, expor ao paciente e seus familiares a real situação da patologia e também a hipótese de morte, quando for necessário, sem que lhe traga mais traumas. Sua função principal é preparar os pacientes para enfrentar os problemas eventuais da doença, usando criatividade e cautela sem causar constrangimentos ou transtornos. Assim o objetivo do trabalho com doenças crônicas se resumiria a “conduzi-las mais apropriadamente” do que “propriamente curá-las”.

Um outro aspecto importante a ser trabalhado em pacientes hospitalizados é a questão da possível deformidade física: quando o profissional se depara com essa situação ele precisa trabalhar a aceitação e a auto-estima do paciente, pois nesses casos é uma situação irreversível, como é o caso do câncer de mama, no qual, geralmente, faz se necessário a retirada total ou parcial da mama.

Assim, este estudo visa investigar os fatores psicológicos envolvidos no desenvolvimento e tratamento da doença de câncer, identificar as influências da doença no estado psicológico do paciente e de seus familiares, e delimitar também as possíveis interferências e atuações que o psicólogo pode oferecer dentro do ambiente hospitalar aos pacientes com diagnóstico de câncer e seus familiares. Porém, para melhor entendimento da atuação dos psicólogos em lidar com pacientes com câncer, é preciso, primeiramente, entender o que é esta patologia, e quais as suas conseqüências e efeitos psicológicos que estão a ela relacionados.





1. A NATUREZA DA DOENÇA DE CÂNCER



1.1 Aspectos clínicos

Milhares de células são produzidas diariamente pelo corpo humano, recebendo instruções contidas no DNA. O agrupamento delas constitui ossos, músculos e pele garantindo o funcionamento e equilíbrio do organismo. Porém, se por algum motivo esse processo não ocorrer de forma ordenada, essas células serão consideradas estranhas ao organismo. Mas, os agentes de defesa não às reconhecem permitindo a permanência das mesmas no organismo, formando tumores ou neoplasias malignos ou benignos (MELLO, 1983).

As células cancerígenas possuem uma maneira característica de se comportar, elas passam a se multiplicar mais rapidamente que as células normais, com isso, tomam conta do tecido. Também são capazes de migrar para outros tecidos e órgãos do corpo distantes de onde “surgiram”; por isso o câncer toma conta do corpo tão rapidamente quanto surgiu, e aumenta a proeminência de morte. Elas são menos especializadas do que as células normais, e por invadir tecidos e órgãos, retiram destes, suas funções normais, gerando dores, mau funcionamento, enfim, a perda da capacidade do órgão. (MELLO, 1983).

O câncer possui características genéticas que podem predispor o indivíduo a desenvolvê-lo como falhas no sistema imunológico, quando existem variáveis ambientais que podem acelerar o processo de formação de um tumor. Algumas destas variáveis poderiam ser a nicotina presente no cigarro no caso de câncer de pulmão, a ação dos raios ultravioleta, nos casos de câncer de pele, mau funcionamento de intestino nos casos de câncer no intestino, alimentação com excesso de gordura; anemias; agentes virais, como o HPV e oncovírus (MELLO, 1983).

O prognóstico do paciente determina o tratamento que pode ser: cirúrgico, quimioterápico, radioterápico ou hormonioterápico. Esses tratamentos contam com a reação imunológica e a disposição para a adesão do indivíduo. “O tratamento da doença não deve interferir na duração normal da vida através dos sintomas” (Ministério da Saúde, 1997).



1.2 Aspectos Psicológicos

Embora os fatores biológicos, os pensamentos e sentimentos são fatores importantes que podem contribuir no desequilíbrio da integração harmoniosa do ser humano, e com isso gerar atitudes que irão prejudicar o desenvolvimento e o tratamento da doença de câncer (LE SHAN, 1920/ 1992; ANGERAMI-CAMON, 1950/ 1996).

Para muitos o câncer é um tipo de “doença da alma” que acontece na vida das pessoas que sofrem caladas, reprimindo suas emoções, pessoas que não foram amadas e que não sabem amar. Estes tipos de pensamentos e sentimentos podem gerar um desequilíbrio no organismo humano, e conseqüentemente, deixá-lo mais suscetível a tal doença (LE SHAN, 1920/1992; ANGERAMI-CAMON, 1950/ 1996).

Barros (2003), propõe que o câncer seja uma doença “integral” do indivíduo, por estar relacionada desde aspectos hereditários, quanto físicos, ambientais, e até mesmo estressores. Nesse caso, o Câncer seria um “reflexo das relações do indivíduo, seja relações com o mundo objectual (ambiente), seja relações consigo mesmo”. (p. 58).



Fatores sócio-culturais possivelmente associados ao desenvolvimento do câncer já foram investigados, há décadas, mediante extensos questionários e avaliações minuciosas. Diferenças de classes sociais, de atividades ocupacionais, de elementos ambientais e do estilo de vida, foram associados aos variáveis de riscos para o câncer. Essas pesquisas têm apontado cada vez mais para os componentes emocionais e comportamentais associados ao desenvolvimento de doenças malignas”. (BARROS, 2003, p.58).



Proponha-se que personalidades do “Tipo C” são as mais propensas a desenvolvê-lo. A personalidade do “Tipo C”, seria aquela característica de pessoas que “costumam negar as experiências mais traumáticas, a repressão das emoções, e tendência à raiva. Além de amabilidade excessiva, paciência dissimulada, não reconhecimento dos conflitos, racionalidade contundente e um rígido controle de expressão emocional”. (BARROS, 2003, p.59).

A interação desse tipo de personalidade e estilo de reação à vida com estressores psicosociais, desencadeiam reações orgânicas, como a diminuição da capacidade imunológica. (BARROS, 2003).

No que diz respeito aos fatores psíquicos e sociais, Barros (2003), supõe que exista um fator que aumenta o risco de câncer. Esse fator seria o de o indivíduo perder uma relação importante, seja com pai, mãe, filhos, cônjuge – que são os mais freqüentes – seguido de inabilidade para liberar os sentimentos e emoções, ou ainda de uma forma inadequada de fazê-lo. Principalmente quando se trata de sentimentos e emoções hostis, de raiva, irritáveis. Contudo, “entre esses sentimentos de perda de relações, o luto parece desempenhar o papel preponderante” (p.59).

Barros (2003) conclui que as pesquisas que buscavam confirmar os aspectos psíquicos e sociais no desenvolvimento do câncer, foram importantes o suficiente para “entender que existe uma relação desses aspectos com a doença e que tais variáveis eram importantes o suficiente para modificar, decisivamente, os efeitos dos outros fatores de risco físicos”. (p.60).

Outros estudos realizados com pacientes cancerosos constataram que, em geral, os pacientes com câncer são pessoas com auto-estima baixa, com falta de confiança em si mesmo, com falta de esperança na vida; pessoas que durante toda sua vida se negligenciaram em favor dos outros, mas que sofrem caladas, reprimindo suas emoções, raivas, frustrações com a própria vida. Mas apesar desses fatores estressantes, esses indivíduos formam uma “capa” demonstrando-se sorridente, agradável, com boa vontade, isto é, para ser aceito e amado (LE SHAN, 1920/1992; ANGERAMI-CAMON, 1950/ 1996).

A partir disso, podemos constatar a relação que existe entre a mente e o corpo e estabelecer que a vida emocional do indivíduo tenha profunda relação com a atuação de seu sistema imunológico. Stephanie Simonton, no seu livro “A família e a cura” (1990), revela que até pouco tempo, os profissionais costumavam enxergar o corpo como uma máquina que estivesse totalmente distinta e separada da mente e das emoções, mas que atualmente, aprenderam que “cada emoção causa uma reação fisiológica concomitante, seja ela positiva ou negativa, e o corpo e a mente estão intimamente ligados” (p.28).

Atualmente, é abrangentemente aceitável que o surgimento do câncer tem total relação com a história emocional do indivíduo, seja ela por uma perda, por desesperança, por situações estressantes, por negação de si em favor dos outros. Enfim, mas o que fazer para que esses sentimentos negativos não se intensifiquem após a constatação do diagnóstico já que em muitos casos, essa notícia é a própria constatação da morte? Que tipo de auxílio pode ser oferecido para que os sentimentos e pensamentos do paciente possam ser usados como acréscimo ao tratamento, tornando-se algo positivo?



2. REAÇÕES EMOCIONAIS DO PACIENTE COM CÂNCER



2.1 Reações emocionais comuns diante do diagnóstico da doença de câncer

Para Stephanie Simonton (1990), a reação inicial do indivíduo é o choque e a negação, principalmente porque em geral, essas pessoas estão se sentindo bem, acreditam que estão com saúde, e muitas vezes por algumas dores que vão e voltam resolvem ir ao médico e fazem os exames. Após o recebimento do diagnóstico de câncer, é natural que exista a negação, pois aceitar o diagnóstico é estar em contato direto com a possibilidade de sofrimento e da morte, e isso é algo ainda mais difícil, quando o paciente não tem essa idéia internalizada. Para alguns estudiosos a depressão inicial, em situações estressantes como essa, é saudável e facilita para o indivíduo, porque permite que este volte para si e encontre uma maneira de lidar com tais sentimentos e situações.

Segundo Antônio de Pádua Serafim e Elisângela Emi Santos (2001), “a partir do diagnóstico, o paciente e familiares iniciam uma trajetória marcada por fases e momentos de muita ansiedade e reações depressivas. Em geral, o processo apresenta-se com respostas emocionais importantes: Sentimento de perda, frustração, tristeza, raiva, culpa e medo”. (p.209).

O profissional da Psicologia pode auxiliar o paciente “lidar com a doença” apontando caminhos mais saudáveis, mas é importante também lembrar que não pode impor ao paciente uma maneira correta de agir; o próprio paciente vai decidir o caminho mais apropriado para ele.



2.2 Reações emocionais durante o processo de tratamento

O câncer é uma doença “pesada”, carregada de conotações extremamente negativas, na qual o indivíduo recebe o diagnóstico, e sua primeira reação é o medo da morte. Além disso, todo o tratamento é baseado em sofrimento, seja pelo efeito dos medicamentos fortes, seja nos casos de cirurgias mutilantes, ou ainda em situações de dúvida e medo da recidiva da doença, tornando tudo ainda mais angustiante.

Sentimentos encontrados muitas vezes em pacientes no processo de tratamento são as dores emocionais, os medos, a baixa auto-estima, o desespero, a desesperança, o sentimento de fracasso. Esses sentimentos devem ser “trabalhados” pelo Psicólogo, porque podem influenciar negativamente o tratamento e resultar na piora da doença.

Para Carl Simonton (1994), o melhor a ser feito é o tratamento de quimioterapia e outros dispostos pela medicina, articulados com aconselhamentos psicológicos. Já que apenas um dos dois não seria suficiente para a cura do indivíduo. Heloisa Chiattone (1996) concorda com a idéia ao dizer que: “A terapia médica do câncer, por exemplo, pode determinar a regressão de um tumor sem que, no entanto, o paciente esteja bem. Os problemas emocionais do paciente e seus conflitos podem continuar afetando a saúde e quase sempre, se não forem superados, determinarão uma recidiva da doença” (p.81).

Uma pesquisa recente confirmou essas idéias: Dean Ornish (apud SIMONTON, 1994) fez uma comparação entre um grupo que era aconselhado a mudar o estilo de vida durante seu tratamento, como incluir exercícios, dietas, relaxamentos e participação em grupos de apoio, e um outro grupo que apenas seguiu o tratamento médico convencional. O resultado da pesquisa foi que 82% dos que receberam aconselhamento inverteram o quadro da doença, quando 53% dos participantes do outro grupo apresentaram piora.

Porém, o momento do paciente com câncer para iniciar o aconselhamento ou acompanhamento psicológico deve ser respeitado (SIMONTON, 1994). Como já foi dito, o paciente precisa de um momento inicial para “digerir” a situação e, passado esse momento de choque, estará pronto para assumir o seu papel diante da doença. Enquanto o paciente não estiver pronto, a família pode estar sendo preparada para lidar com as novas necessidades e situações que surgirão. A partir desse momento, o trabalho não se resume só no psicólogo competente, mas na união de forças da família do paciente, da equipe de saúde, que também devem estar interessados em fazer o possível pelo paciente; mas acima de tudo, o paciente precisa querer viver.



3. A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA NO TRATAMENTO DO PACIENTE COM CÂNCER



3.1 O papel da família no tratamento da doença de câncer

Diante de todas as mudanças que vem ocorrendo na sociedade, o ser humano tem se demonstrado cada dia mais necessitado do contato social, de estabelecer relações, de fazer amizades, de pertencer um meio, no qual possa ser amado e protegido. A família é o exemplo mais claro disso, e será nela onde encontraremos o pilar para dar forças ao paciente com câncer.

A família deve ser integrada ao tratamento do paciente, e os profissionais da saúde e os psicólogos devem saber lidar para que através dela se possa ganhar a confiança do paciente. É importante lembrar que cada família possui uma dinâmica, e cada um vai agir conforme ela é estruturada. Por exemplo, se quem está doente é o pai, que dentro desta família era o responsável pelas decisões, muito provavelmente, essa família ficará perdida sem saber que rumo tomar, ou ainda, essas responsabilidades podem cair sobre os ombros do paciente que no momento está fragilizado. Assim, o contato com a família é um fator muito importante para facilitar o tratamento do paciente.

No livro “Cartas de um sobrevivente: O caminho da cura através da transformação interior” de Carl Simonton (1994), o autor expões cartas de um paciente que sofreu de câncer. Em uma dessas cartas, foi colocado que independente de quem exerça o papel de dominador na família, é necessário que o doente seja colocado a par da situação e entenda que ele “é o único responsável para encontrar uma solução para sua doença, independente de quem tome as decisões” (p.158).

O paciente deve ter consciência que mesmo com a ajuda dos outros em sua recuperação, ele é o único responsável por si; já que somente ele sabe o que realmente está sentindo e do que necessita. Além disso, a família deve saber que por mais que se esforce, não tem a função de salvar o paciente da doença e que seu papel é de auxiliar, ajudar e apoiar. Aliás, o convívio nesta situação estressante torna-se mais prazeroso quando a família mantém uma boa comunicação e quando sabe ou aprende a respeitar as decisões do doente.

É importante que o paciente tenha liberdade de eleger um acompanhante que estará com ele em todas as situações. No caso de pessoas casadas, geralmente o cônjuge que recebe esse papel; mas no caso de pessoas solteiras é importante que o paciente decida quem quer que passe o tempo com ele. Na escolha do acompanhante, deve ser levado em consideração, a saúde emocional da pessoa, para que ela seja realmente útil e não torne a situação ainda mais estressante. Vale lembrar que este não deve ser sobrecarregado, pelo contrário, deve conhecer suas próprias necessidades e atendê-las, para que não perca a energia ou que fique emocionalmente abalado, tornando-se incapaz de ajudar.

Após ser diagnosticado o câncer, é importante que aja uma mobilização da família para se manter informada sobre o que for possível sobre a doença, para se estruturar de forma que cada um contribua no auxílio do paciente sem que haja uma sobrecarga em apenas um dos familiares. Segundo Júlio Mello Filho (1983), é interessante que a equipe médica sempre mantenha a família informada do quadro do paciente, seja recaídas ou melhoras; que estabeleça a responsabilidade da condução do caso, além de mantê-los preparados para enfrentar as eventualidades da situação. O ideal seria que a partir do diagnóstico a família ou pelo menos um acompanhante, começasse a freqüentar um grupo de apoio que o orientasse sobre essas situações. Além de entender que “é muito útil para o doente, quando familiares e amigos encaram a doença como uma oportunidade para aprender mais sobre a vida e para fortalecer os laços familiares” (Simonton, 1994. p.160).

A internação permanente para um paciente, quando não esperada, torna-se agressiva. O mesmo precisará de adaptação a essas mudanças, que podem ser radicais, causando no paciente revolta por ficar num local longe do seu ambiente familiar. Apesar disso, acaba apegando-se aos funcionários e profissionais da saúde, que estão mais presentes nesse momento tão sensível da doença.



4. POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA

Os profissionais de psicologia dispõem de diversas técnicas para lidar com as situações cotidianas no auxílio ao indivíduo, porém nos casos de doenças crônicas como o câncer são geralmente utilizadas psicoterapias de curto prazo que tragam efeitos imediatos.

Sendo assim, a psicoterapia breve seria a mais indicada, pois se trata de uma terapia que possui tempo e objetivos determinados, buscando amenizar a aflição vivida pelo paciente nesse período, isto é, através do diálogo e de uma boa relação terapêutica de confiança. O psicólogo irá tentar junto com o paciente, restabelecer o equilíbrio psíquico do indivíduo.

Nesses casos de intervenções psicológicas a pacientes que já receberam o diagnóstico da doença, podemos também incluir a aplicação da terapia cognitivo-comportamental para intervenções em crise. “Os programas de intervenções envolvem contexto de apoio, informações sobre a doença e tratamento, desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, estratégias cognitivas de enfrentamento e relaxamento (RANGÉ, 2001). Ou seja, a intervenção é trabalhada a partir da idéia de que os mecanismos envolvidos no ”lidar com a doença” são semelhantes aos mecanismos para lidar com outros estressores. Como por exemplo: “Adquirir conhecimento a respeito do estressor, utilizar estados cognitivos positivos, estratégias comportamentais ativas e, com a redução do estresse, uma avaliação mais realística da situação pode aumentar a sensação de controle e auto-eficácia”. (Andersen,1992; Citado por Miyazaki, in RANGÉ, 2001)

Existem também, métodos mais específicos para o psicólogo trabalhar com os familiares do paciente, que precisam de orientação e suporte diante desta situação de doença. O psicólogo pode, inclusive, sugerir que os familiares passem a fazer terapia de grupo (RANGÉ, 2001). Ou ainda, caso a família não tenha condições de custear tal terapia, que um dos membros, ou o familiar que estará mais próximo do doente, passe a freqüentar um grupo de apoio ou auto-ajuda que fosse específico para familiares de pacientes com câncer, no qual esse membro teria a possibilidade de desabafar sobre seus sentimentos e preocupações, para pessoas que vivenciam a mesma dificuldade, e ainda, produzem efeitos positivos sobre o paciente. (RANGÉ, 2001).

CONSIDERAÇÕES FINAIS



O papel do psicólogo cresce a cada dia, pois tem se notado a necessidade infindável desse profissional em diversas áreas como: hospitalar, jurídica, escolar, empresarial, dentre outras.

Diante do fato do câncer ser uma enfermidade que possui correlação “direta” com as emoções e sentimentos do indivíduo, tanto antes, quanto depois do diagnóstico, fica clara a necessidade da presença do psicólogo para atuar no trabalho dos conteúdos emocionais que “geraram”, ou que podem influenciar negativamente, a doença, para que não haja uma recidiva e piore a saúde emocional e físico do indivíduo.

Percebemos através deste, que nos hospitais em que o psicólogo encontra-se trabalhando com os aspectos psíquicos e sociais, os pacientes têm uma melhora muito superior aos que não tem esse apoio psicológico. Como foi visto ao longo desse artigo, o paciente na maioria das vezes fica desorientado ao receber o diagnóstico, pois, acredita-se que o câncer será a antecipação de sua morte. E vale ressaltar que a morte ainda é motivo de angústia e preocupação para inúmeros seres humanos.

Além disso, o psicólogo pode ajudar o paciente no momento em que este recebe a notícia, durante o processo de tratamento – que costuma ser muito difícil, auxiliando-o a lidar com todos os medos e preocupações que surgem com a doença. Também o psicólogo pode atuar no apoio à família, orientando-a sobre tudo o que esta pode ou não, fazer para ajudar. Amenizando assim, a aflição e dificuldades vividas por todos devido à doença.

O trabalho do psicólogo no hospital também é importante para o reconhecimento da atuação deste, pelos outros profissionais de saúde que, em geral, não aceitam a relação existente entre as emoções e o desenvolvimento de doenças como o câncer. Tais profissionais costumam desvencilhar o corpo da mente e do espírito, não encarando o ser humano com totalidade. Com isso, apenas tratam da doença e não do doente. O psicólogo pode orientar tais profissionais para que percebam mais as necessidades emocionais do paciente, além de atuarem em conjunto no tratamento da doença, que não deve ser baseada apenas em quimioterapias e radioterapias.

Contudo, não devemos pensar apenas numa atuação psicológica após o diagnóstico da doença. Seria interessante se hoje, os profissionais de psicologia estivessem interessados em se desprenderem da prática exclusivamente clínica e combina-la com práticas comunitárias, organizando projetos de atuações preventivas que pudessem envolver o trabalho em instituições de saúdes e que promovessem saúde mental. Além disso, atualmente a psicologia ainda é elitizada, onde apenas instituições particulares ou públicas de níveis elevados que possuem a atuação efetiva desse profissional.

Através desse artigo, podemos constatar a necessidade de um envolvimento maior da psicologia em campanhas públicas, bem como: projetos preventivos, seminários, palestras à comunidade, dentre outros. Essa atuação com a comunidade mostraria a população geral que o psicólogo não é apenas um profissional que atende somente os indivíduos de classe média/ alta, mas sim um profissional eticamente e sistematicamente capacitado para atender indivíduos de diversas classes sociais.

Esses projetos de prevenção e conscientização de doenças emocionais como a depressão, dentre outras, ajudaria no desenvolvimento da saúde mental da população, tendo como maior objetivo atender os menos favorecidos, esse atendimento começaria desde o trabalho com as grávidas, recém-nascidos, até as pessoas de idade adulta, como os idosos depressivos.

Um psicólogo poderia atuar juntamente com outros profissionais da saúde na comunidade onde há uma alta incidência de câncer de mama, onde poderiam estar trazendo conhecimentos às mulheres sobre como fazer o exame preventivo, ou em casos de prevenção de câncer do colo do útero, orientando as mulheres a se protegerem nas relações sexuais, para não se contaminaram com o vírus do HPV. Ou, ainda ajuda-las na recuperação caso o recebimento do diagnóstico fosse positivo.

Uma pesquisa feita por Antônio de Pádua Serafim e Elisângela Emi Santos (2001), constatou que apenas 35% da população realiza exames preventivos de câncer periódicos. E segundo eles os programas de prevenção ainda são os melhores combatentes dessa patologia, pois o “diagnóstico precoce ainda é a melhor providência. E este quando acompanhado de um suporte emocional, tem tido bons resultados desde a cura quanto ao controle da proliferação da doença, contribuindo para a melhora da qualidade de vida do paciente”. (pág 211)

Outras formas de atuação do psicólogo em relação ao câncer é buscando modificar os hábitos não saudáveis por hábitos que promovam saúde, como prática de exercícios físicos e alimentação saudável. Enfim, estender a atuação para comunidades carentes, para centros comunitários, prontos-socorros, creches, e outras instituições governamentais, que se interessem pela saúde integral, ou seja, incluindo a saúde mental, da população.

Joicy Mara Pereira de Freitas

Estudante de Psicologia

ULBRA Manaus.

joicymarry@yahoo.com.br



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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